sábado, 4 de abril de 2009

Lírica

Fui acometida por um súbito ataque de lirismo. Desses que cismam em me surpreender nas manhãs mal-dormidas. Mas decidi resistir. Poesia hoje não! – digo a mim mesma, olhando os meus olhos ainda borrados da maquiagem antiga. Poesia, hoje, não! Tenho tentado resistir a esses arroubos de profundos sentimentos, regados a uma esperança nostálgica de um tempo que nunca será. A vida não tem me sido uma boa amante. Por isso resisto, hoje, à poesia. Porque decidi não me entregar à tristeza e ainda não tenho motivos para sorrir. É claro que no canto dos meus lábios está – como sempre esteve – aquela velha tensão irônica, sedutora. Aquela, de quem ri de algo que não tem a menor graça. Mas não vou me entregar a esse rio profundo, que deságua dentro de mim. Pelo menos não hoje. Resisto porque ainda não é o momento adequado. Porque, por hora, sei que posso esperar. Não que eu não tenha pressa – devo confessar – mas é que essa balada de amor romântico precisa de terra fértil para florescer. Paixões. Por isso decidi me livrar de todos esses homens que ainda andam agarrados ao meu pescoço. Não que eu não goste deles, de forma alguma. Para cada um tenho um olhar especial, uma lembrança furtiva, um apelido ridículo. Mas eles andam ocupando muito espaço dentro desta minha caixa que, como vocês já sabem, vive cheia demais. Por isso resolvi jogá-los fora; dá-los de presente a caixas um pouco menos cheias. Decidi limpar o meu armário de ilusões para poder recheá-los de novos personagens. Porque figuras repetidas, às vezes, enjoam. E nos prendem, sem querer, a uma realidade paralela, intangível. Um limbo; purgatório; espaço entre o paraíso e o desespero. E é porque me prendo a essas antigas esperanças que hoje disse não à poesia. Porque não quero sonetos de amor saindo dos meus dedos, e não quero palavras encantadoras brilhando nos meus lábios. Não quero, porque hoje decidi ficar sozinha. Pela primeira vez; enfim; sozinha! Comigo mesma, livre dos meus fantasmas. Resolvi tirar do coração essa sujeira agarrada, escorregadia. Resolvi deixá-lo limpo, para quando um novo amor passar. Para quando, de repente, outro ataque de lirismo me derrubar na cama. E aí sim, sem culpa, eu escrever as mais sinceras palavras de amor. Incontroláveis. Como lágrimas a derreter, calmamente, as folhas amareladas daquela carta antiga. Por isso disse não à poesia. Porque não quero decepcioná-la. Porque as dores dos amores antigos nunca são tão brilhantes como uma nova paixão. Porque meus amantes foram colocados todos, hoje, no passado. Cada um em seu devido lugar afetivo na minha memória de sensações. Porque hoje resolvi abrir a porta, com a casa limpa, e esperar a próxima correspondência. O próximo platonismo. O próximo descompasso. Porque chega uma hora em que temos que decidir entre ir em frente, ou continuarmos presos aos espectros do passado. E eu decidi pelo amanhã. Pelo que ainda há de vir. E aguardo, ansiosamente, as decisões do acaso. Com a porta aberta e a alma limpa. E com esse lirismo guardado, sufocado, esperando encontrar, enfim, o objeto do seu (des)encanto.

Um comentário:

Marcela Sena disse...

Linda.

simples assim, linda demais.