Quando ele disse que ia embora, algo nela se riu. Mais uma vez – pensou. Não era a primeira. Provavelmente, não seria a última. Mas dessa vez – ao contrário das outras – teve um pouco de pena de si mesma. Sentiu de imediato a nostalgia dos dias que não ia viver e se culpou, um pouco, por não tê-lo conhecido antes. Não havia como. Era apenas o acaso. Ele tinha se encarregado de juntá-los num momento inoportuno, quando ambos já não esperavam tamanhas surpresas. Guardou consigo a resignação daquele momento, mas agarrou-se à idéia de que ainda havia algumas coisas a serem vividas. Depois daquele dia, porém, só lhe restou o silêncio. Tentou encontrá-lo, ligou algumas vezes, mas nunca obteve resposta. Um mês vivendo na mesma cidade, freqüentando os mesmos lugares, e nada. Apenas uma sombra a lhe perseguir por entre as pessoas. Nunca tentou lhe entender – ele mesmo nunca quis se explicar. Mas respeitou o seu silêncio, como lhe era de praxe. Durante muitas noites, teve a certeza que o veria de novo; assim, sem querer. Mas o acaso não foi tão generoso desta vez. E então ele partiu. Algum tempo depois, ele se foi, como previsto, de volta para o que chamava de casa. Mandou-lhe, então, algumas mensagens – curiosa que estava sobre sua nova vida. E, de novo, teve como resposta o silêncio. Às vezes se perguntava se sua presença não havia sido um sonho. Devaneios encantadores daqueles dias de primavera. Tinha a impressão de que ele nunca havia passado por sua vida. Que ela o havia imaginado – algo como um príncipe moderno sem cavalo branco. Mas não. As testemunhas estavam ali. As alianças sumiram nos dedos, é verdade, mas aqueles olhos tristes lhe dizendo que iam embora continuavam vivos, gravados em sua memória. Não compreendia o sumiço, não se conformava com o silêncio. Mas o respeitava. Talvez fosse uma forma meio equivocada de não sofrer. Por alguns meses, sua imagem cismava em invadir seus pensamentos; mas ela a apagava com golpes de resignação. Nada a se fazer – pensava. E quando pensou que tudo já havia passado, que aquele sorriso (máscara de alguma dor) já havia se acomodado nos arquivos da memória, ele lhe surgiu imenso, na superfície, prestes a explodir. Foi numa conversa com uma amiga em comum. Ela havia proposto o assunto; como uma conversa atual; como se ele nunca a houvesse deixado. E ele? – perguntou. Nunca mais me respondeu – ela disse. Os olhos da amiga se encheram de lágrimas, como se a dor da perda fosse dela. Disse que achava uma pena, mas que o compreendia. Estava deprimido, estava de partida, e talvez não quisesse deixar pendências. Disse que se lembrava da última conversa com ele: estava confuso, apaixonado, não sabia o que fazer. Talvez se calar tivesse sido a única solução possível naquele momento. Por um instante, todo o seu corpo se estremeceu na esperança fugaz de um recomeço. Por vezes, ela tinha ousado acreditar que ele não passava de um canalha; que ela havia se envolvido demais; que aquele amor nunca tinha acontecido. Contou suas inseguranças para a amiga, que lhe tranqüilizou: você sabe muito bem quem ele era e em que momento estava. talvez tenha sido mais difícil para ele do que para você. Sentiu-se tola, por um instante. Por outro lado, não havia como saber. Ele tinha lhe dado margem para qualquer tipo de interpretação, e seu silêncio decidido lhe havia deixado insegura e acuada. Por vezes se sentia uma chata apaixonada, que não sabia lidar com a rejeição. Tudo isso ela disse à amiga, que lhe confortou com um sorriso: tenho pena de só ter sabido do caso de vocês depois que ele se foi. talvez eu pudesse ter intercedido de alguma forma. É. Ele tinha ido embora, isso era um fato. Não sabia quando voltaria a vê-lo, nem se voltaria a vê-lo. Mas seu aniversário estava próximo. E decidiu – mais uma vez – tentar permear seu silêncio. Diria a ele todas as palavras que ficaram guardadas; todos os sentimentos sufocados; todas as esperanças naufragadas. Diria o quanto pensava nele, e como se compadecia dos momentos que não viveram juntos. Diria a ele que, para ela, não havia sido uma ilusão. Havia sido lindo. Mágico. Daria esta chance a si mesma: tentaria uma última vez. Na pior das hipóteses teria como resposta, de novo, o silêncio. Mas ela já se acostumara. Não esperava, em absoluto, uma resposta apaixonada. Por hora, o que queria mesmo era tirar aquele amor dos ombros e entregar, sem culpa, a quem lhe era de direito.
Nunca é tarde demais.
Um comentário:
muitos em um! muito silêncio em palavra!
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