sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Retorno

Ouvindo palavras que não sei de onde vem. Tenho saudades dessas vozes que adentram meus ouvidos e me fazem pensar em coisas que eu já tinha abafado. Ah saudade daquela pessoa que já fui e não sou mais. Hoje levo a paz. Uma paz profunda e serena, que me faz esquecer por instantes do maremoto que sou por dentro. A ausência me faz completa. E, na completude, me falta um pedaço. Estou feliz com as coisas que deixaram de ser. Caminho da vida. Pequenos sorrisos conquistados, pequenas conquistas sorridentes. Hoje vou deixar de me esquecer, e lembrar-me daquilo que está por vir. Os cabelos loiros, o sorriso, as possibilidades. Ah vontade arrebatadora de deixar de acontecer. De deixar acontecer e só. Sou o sonho e as pequenas realidades. As responsabilidades e as pequenas loucuras cuidadosas. Sinto medo de deixar de ser. E deixarei, é fato. Deixaremos, todos. Por ora, choro lágrimas de profunda beleza. Pequenos brilhantes em meio a este deserto de ganância. Simples jogos de cena que criarão a poesia desse nosso viver. Tenho pena, ainda. De mim. Não de mim. Não de nada, de tudo, enfim. E as cifras magnéticas e intangíveis enfim começam a fazer algum sentido obscuro e delicioso. Na carteira, fotos antigas e amareladas. Cartões, fichas, possibilidades. Tenho elaborado um projeto. Minucioso. Envolve alianças e um altar. Olhos calmos e febris. Ao lado, na brancura do edredom vazio, a solidão. Bonita, ela. Passageira. No bolso, o bilhete para outro começo. Inicio de tentações e libertinagens. Ainda os cachos loiros. Ainda aqueles olhos apertados, abraços apertados, amassos. Coisas belas e sujas; profundas e sutis. Ao mesmo tempo, o pânico. Rosas, flores, fotos. Cartões e cartazes. Uma sensação de borboletas no estômago, um enjôo, uma gordurinha localizada. Tudo na mais perfeita imperfeição. Natural. Covinhas e umbigo, sentimentos, sentido. Há sentido? Sorrisos. Só risos. Olhos calmos e profundos. Olhos tristes. Castanhamente. Com calma, sigo arrepiada na tênue linha que separa a loucura do não ser. Será? Com pêlos eriçados, nada mais precisa de justificativa. Ação, apenas ação. Letras soltas em telas irreais, olhos fervorosos em busca de sentido inexistente. Tudo pouco. Tudo melodias repetitivas e deliciosas. E o medo. Graças! O medo. Sempre e nunca. Nuca. Boca. Chão e asas. E o céu, mais próximo que o chão, mais bonito que o próprio. Mais meu. E seu. Como é bom estar de volta!

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