quinta-feira, 7 de maio de 2009

Risco

Acho que tenho pedras nos dedos. Desenvolveram uma estranha teia de aranha. Espessa. Estou com dificuldades de escrever. Não ando tendo tempo para mim. E escrever é o meu olhar para dentro. Pelo microfone, a voz anuncia: por lá, 15ºC. Não trouxe nenhuma roupa de frio – penso. Um casaco, talvez. Estava com saudade das manhãs ensolaradas e frias. Secas. Mas mais aconchegantes do que quaisquer outras. Penso na cama, ainda quente, que deixei para trás. Na esperança que, de repente, cismou em aparecer. Enfim um interesse. Ah, os homens... Esses estranhos seres peludos que tanto me encantam. Perfeitos em suas imperfeições. Enquanto espero o telefone dar algum sinal de vida, lembro das oportunidades que perdi ao longo da caminhada. Quanta coisa a gente deixa de viver por medo de tentar! Estou cascuda. Escolada. Hoje prefiro descer ao mais fundo abismo a ficar na beirada, indecisa. Gosto do risco. Do gosto do risco. E devo assumir que esses amores de calçada muito me encantam. Descompromissados. Apenas mais uma tentativa divertida de agarrar a felicidade pelas pernas. Tenho sido bem sucedida em encontrar pérolas no chiqueiro. Se alguém as jogou aos porcos, trato eu de recolhê-las! Com todo o cuidado recomendado de lavá-las bem antes de usá-las. Estou tentando negar. Mas não sei porque senti aquele coceirinha. Sabe aquela? Que finge não ser nada e vai crescendo desgovernadamente. Que, de repente, transforma o muro cinza em um grande cobertor de hera. Verde. Mas calma!! Antecipo-me, eu sei. Mas gosto das ilusões solitárias que fabricam, aos poucos, os sonhos irreais. Tenho aplacado minhas saudades nos sono. No silêncio que nasce na escuridão da minha alma. O breu mais claro da existência. De novo, a voz perturba minha verborragia muda. Em pouco tempo estarei lá. Mas hoje não há ansiedade. Não haverá encontro. Hoje saí duma solidão para entrar em outra. A casa, vazia, não vai me acolher como o abraço de mãe. Mas o que importa? Levo dentro uma felicidade alheia que nem consigo explicar. Uma magia estranha de ver um sonho se realizar. O sonho das pessoas mais importantes. Estou feliz por eles. Muito feliz. Mas quando chegar, ninguém abrirá as portas para mim; não haverá sorrisos de saudades. Apenas contas e mais contas se acumulando por debaixo da porta. Todas me esperando com a voracidade do vencimento. Mas calma. Cuidarei delas uma a uma, em seu devido tempo. Assim como agora estou cuidando de semear a minha horta. Aos poucos. Semente por semente. Estou atenta às lagrimas do orvalho. Estou dando à natureza o tempo necessário do florescimento. Gosto das coisas que amadurecem aos poucos. Acho que as pessoas andam verde demais.

Um comentário:

Marcela Sena disse...

junta tudo e escreve.
=)

bjão saudoso.