segunda-feira, 23 de março de 2009

Não posso

Estou triste hoje. Ferida mortalmente. Sinto uma dor lancinante que não ousa passar. Lateja. Respiro, concentro-me, e nada! A dor continua aqui. Uma dor de amor pulsante, que cisma em bailar a valsa do meu descompasso. A dor é da espera. Da impotência. Sinto não poder esticar os braços, choro por não poder abraçar uma alma. E me pergunto – sem responder-me – por que é tão difícil? Sinto uma melancolia profunda de sentir-me tão perto, e não poder me aproximar. E creio, cegamente, que a busca, enfim, acabou. Ao menos temporariamente. Quero viver este amor. Quero me permitir. Mas o escudo da hierarquia não me deixa passar pro outro lado; me faz ter medo de subir o muro. Assim, não sei de que lado fico. Tento encontrar brechas nessa realidade irreal, mas só encontro medo. Confesso: sinto-me, novamente, uma garotinha de 14 anos. Perdida. Suspirosa. Improvisada. Estranho cada palavra que sai da minha boca. Pareço infantil e inconsistente. Mas estou apaixonada, é apenas isso. De uma paixão avassaladora e despropositada. Que nasceu de um campo infértil, e em uma hora muito, mas muito imprópria. Não sei se vou conseguir esperar toda essa eternidade sufocando esses gritos dentro de mim. Às vezes, parece que meus olhos vão sangrar, e minha boca vai se abrir em declarações da alma, como uma boneca que, com pilha nova, não consegue descansar. Há dias ele invade meu sono. Sem nem saber onde moro, já devassou minha cama, e conhece, sorrateiramente, cada pequena porta dos meus sonhos. Fui eu quem o deixei entrar, eu sei. Mas ele foi como um vampiro. Como a imprensa: uma vez convidada, nunca deixa de aparecer. Eu não sabia – juro – não sabia que sua presença se tornaria tão palpável. E, mesmo com toda esta distância, ainda consigo sentir o toque suave de suas mãos e sua voz aveludada soando bem perto dos meus ouvidos. Não sei o que me aconteceu! É como se de repente a realidade ruísse; e dela só sobrasse ele e eu. Como uma só coisa, a se misturar entre os olhares. Uma só energia vibrando pelas paredes e pelas portas. Saindo pelas janelas e alcançando os espaços. Pode ser que Freud explique – mas eu, sinceramente, duvido. Pode ser platônico, esse amor de pequenos toques. Mas resisto! Quero a textura da pele e o espetar dos cabelos. Quero o olhar que enxerga, e não o que passa e atravessa. Quero estender-lhe a mão. E é por isso que estou triste. Porque não consigo. Eu quero, mas não consigo! Sou covarde. Mas não sou a primeira. Muitos já devem tê-lo vivido. Por isso faço minhas as palavras – talvez fora de contexto – de Vinicius de Moraes:

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.

Peço desculpas pela minha fraqueza... talvez um dia eu crie coragem.

2 comentários:

Marcela Sena disse...

me causou arrepios.
escreveu com alma forte, como a morte!

linda sempre.

samambaias nas mãos disse...

minha flor...
lindo e triste.
calma...
vai chegar...
criamos nossos fantasmas...
antecipamos...
deduzimos...
prever reações?
acho que não.
o solo não é fértil?

beijos saudosos!!!!