Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Castelo
Com os olhos marejados, respirou fundo e voltou. Não era a primeira vez que o fazia. Mas desta vez suspirou diferente, como quem ainda não sabe o que está por vir. Teve medo, enfim. Mais uma vez foi hostil, falou mal de si mesma, pensou bobagens, sorriu mentiras. E encantou. Como de praxe, encantou. Mas assustou também. E, com sua armadura devidamente colocada a quilômetros de distancia, fez sua barreira mais eficiente do que nunca. Aí se sentiu sozinha no castelo que havia construído para si. E não soube como sair dele. Havia fechado as entradas, barrado as saídas, trancado as janelas. Olhou-se refletida em vidro, e teve medo de sua pavorosa astúcia. Como havia sido tola – pensou. E, aos poucos, de leve mesmo, principiou a afastar as cortinas, deixando entrar pequenos feixes de luz, sorrateiros. Ainda sim, não conseguiu conceber a possibilidade de destrancar a porta. Mas experimentou abrir as janelas, deixando o sol entrar de vez. Foi então que o castelo ficou quente e, sem perceber, a princesa teve vontade de brincar nos jardins, de sentir a brisa leve a lhe balançar os cabelos, e de corar as faces de vergonha e mormaço. Sorriu – como há tempos não o fazia. Deparou-se com um rosa ainda em botão, que a fez pensar, sem querer, em um sorriso distante que por ora parecia mortificado. Mas ainda assim sorriu. Estava de novo entrando em contato com a natureza e com a vida. E foram as borboletas que sobrevoavam o jardim que a fizeram perceber como o seu coração andava em pedra. Amoleceu-o em banho-maria, transformando-o em uma substância pastosa e doce como brigadeiro. E as muralhas do castelo derreteram-se instantaneamente, abrindo os horizontes para as montanhas e o mar. A princesa, nesta hora, cantou. Com os lábios e a alma. E convidou a lua para um passeio noturno. E foi assim que, ao acaso, os olhos da princesa voltaram lentamente a brilhar, e o seu coração voltou a adoçar a vida de sapos e príncipes. Assim. De repente. Porque é de uma decisão que brotam os pequenos amores. De um sorriso no olhar e de uma certa calmaria interna. E de um desassossego moreno, de olhos fundos e coxas grossas. E é assim, inspirada pela estória da princesa, que planto uma semente de cacau – primeira e eterna. Planto para que germine. Rego para que dê frutos. E sorrio, para que saibam que por baixo de uma casca grossa, sempre pode haver uma deliciosa surpresa.
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