quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Destinos

E então ele subiu o morro e se despediu – sem olhar para trás. Não queria ver os olhos cintilantes da menina que sorria. Não queria admitir sua própria partida. Correu por entre os carros até alcançar a porta do ônibus e parou, por um momento. Pela primeira vez, hesitou. Não queria se afastar. Mas era preciso. Naquele momento, era preciso. Enquanto sacolejava pelas estradas esburacadas, pensava naquele sorriso inocente, que ele se recusara a ver. Jamais esqueceria aquele sorriso a lhe atravessar as costas e atingir – em cheio – o coração.

Parada no sopé do morro, a menina ainda guardava nos lábios aquele sorriso sem graça. Os olhos ainda brilhando como luas novas. E, embora tentasse transparecer essa atmosfera calma, por dentro era só trevas. Um oceano escuro e revolto de sentimentos que não podia compreender. No ventre, a esperança de dias melhores. No ventre, sua sentença irrevogável de vida. Tentava – bravamente – conter a ânsia de vômito que lhe invadia ao pensar nele, sozinho, sacolejando pelas estradas esburacadas. Ela também deveria estar lá. E ele fora embora sem ao menos olhar para trás.

Por mais que tentasse se convencer, ainda não conseguia acreditar que tinha tomado a decisão certa. Tinha-a deixado para trás, como o ventre ainda em ponta e os olhos ainda em mar. Não era certo. Não era justo. Mas não podia adiar seus planos por causa de um percalço. Deveria, sim, seguir em frente e construir o futuro que traçara a duras penas. Ainda que sozinho. Por um instante, chorou. Não era certo. Não era justo. Só metade de tudo aquilo era verdade. O sonho estava dividido em duas partes desiguais e desconexas. Três partes. Seria menino ou menina? Com as ondas a lhe avançar pelos olhos, soluçou quieto enquanto tentava tomar a decisão mais sensata. Havia gasto todo seu dinheiro. Já usara todos os sonhos que lhe cabiam no bolso. Do lugar exato onde estava, não havia volta. Não mais.

Tentava compreender os motivos de sua partida. Tinha, a muito custo, apoiado sua decisão. Mas depois de ouvir o ronco do motor ao longe e de não sentir as pedras do caminho, passou a desacreditar da sorte. Por dentro, era só ausência. Uma ausência maldita e desesperadora de se sentir dois enquanto era metade. Carregava consigo um amor convulsivo e desesperado. Um filho natimorto de paixão abortada. Um ventre recheado de desilusões e angústias. Por alguns segundos, sentiu-se morta, e tal sensação lhe foi demais agradável para conseguir afastar o pensamento inevitável do fim da vida. Abreviar o sofrimento seria um ato de coragem, e não de covardia. Sorriu de sua destreza. Sabia, enfim, como lidar com a situação.

Dentro das lágrimas que rolavam de seu rosto endurecido pelo tempo, havia algum tempero amargo de culpa. Sabia que não podia tê-la deixado. Sabia que o fardo era também seu. Por isso, na primeira parada do ônibus, teve ganas de sair correndo, e nunca mais voltar. Mas deixou-se ficar na cabine do banheiro, sentado por sobre o vaso sujo e malcheiroso, tentando embriagar-se de pingas e pensamentos. Tentando encontrar forças para se levantar. Ouviu quando o motor voltou a ligar-se, e o motorista buzinou duas vezes, anunciando a nova partida. Ouviu, mas continuou parado, no mesmo lugar, esperando que o acaso decidisse por ele. Lembrou-se daqueles olhos de lua nova como duas estrelas a iluminar seus passos. Tomou mais um trago, e ainda outro, e outro. Deixou-se cair por entre a louça do banheiro, e seus soluços poderiam ser ouvidos a quilômetros de distância, caso não os abafasse com aquela mão calejada e tosca. E com aquela certeza de que nada iria mudar.

Sorriu de sua bravura e custou a acreditar no que faria. Ela, menina-moça, tão vulnerável e tão forte, tão absolutamente dona de seu destino. Não teve tempo de repensar. Nem sequer hesitou. Correu morro acima, por entre os carros e os ônibus e ainda mais e mais. Chegou ofegante ao topo do morro – mirante da cidade – e ainda antes um pouco observou a vista. Ainda teve este tempo. Observou a cidade que lhe prendia e o abismo que a libertava. Tomou um pouco de distância, sentiu a pulsação aumentar numa descarga de adrenalina, e se lançou. Um salto para o infinito. Uma gota de liberdade. Naqueles segundos intermináveis – enquanto durava a queda – ainda teve tempo de ter certeza de que não podia se arrepender. Não iria se arrepender. Morria consigo o amor e o destino. Estava, enfim, livre outra vez.

Dormiu abraçado àquele vaso imundo, alternando crises de choro e vômito. Como companheira, apenas a garrafa plástica de aguardente barata. Acordou no meio da noite, entre o som dos grilos e dos pneus no asfalto. Não sabia ao certo quanto tempo tinha ficado ali. Não sabia mais se lhe restava algum tempo. Com as migalhas de sua dignidade, pensou que não poderia – jamais – voltar para casa assim. Ficaria rico. Só voltaria para lá quando estivesse rico. Ainda seria digno de rever aquele seu sorriso inocente, e aqueles seus olhos cintilantes. Por ora, pedia desculpas a si mesmo e maldizia o destino. Mas a sorte ainda havia de mudar. Um dia – ele pensava. Um dia...

Por alguns dias, pensaram que ela tinha fugido atrás dele. Custaram a encontrar o corpo em frangalhos no fundo do precipício. Tentaram avisá-lo. Em vão. Havia sumido no mundo como um rato. Ninguém jamais o encontraria. Anos depois, ainda sem dinheiro e com nenhuma dignidade, fora encontrado morto em um quarto sujo de hotel barato. Cirrose – diagnosticaram. Nunca soube de seu salto no abismo. Passou o resto dos dias com uma pedra presa aos pés, como um afogado a se debater. Não conseguira emprego, nem dinheiro, e muito menos amor. Ainda um pouco antes de seu coração parar e seus olhos perderem o brilho, lembrou-se daquela lua nova e do sorriso cintilante. Sentiu pena de si por não ter conhecido o filho. Pediu desculpas e morreu sem paz.

Não se encontraram no além. Não se encontraram nunca mais. Com medo daquela pobreza arrasadora, morreram separados, cada um em sua miséria. Mas ambos, no último suspiro, maldisseram o amor. Maldito amor. Maldito e sufocante amor.

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