Tinha pedido um texto, ele. Um texto em sua homenagem, que ficasse gravado nesse universo intangível, e que ele pudesse chamar de seu. Infelizmente, ele não sabia que as palavras não possuem rédeas, e que moldá-las não é exatamente o meu trabalho. Mas decidi agradá-lo, semeando letras em um fundo branco, que só acaba quando não há mais delas no meu pensamento. Tivesse pedido outra coisa, outra qualquer que eu pudesse confeccionar, com certeza eu o teria feito com prazer e dedicação. Mas ele havia pedido palavras e eu, infelizmente, ainda não sabia controlá-las. Dói, tentar colocá-las a minha disposição. Ele não sabia que quando paro para escrever, são elas as donas dos dedos. Da mente. Mas mesmo assim, e talvez exatamente por isso, sentei-me à frente do computador com o afinco do sertanejo, que semeia sorrindo o mais árido pedaço de chão. Por tudo que vivemos juntos, algumas linhas de sofrimento seriam sempre pouco. Mas mesmo assim, ainda não sei o que escrever. O que sei é que aqueles olhos azuis estão, agora, cravados em mim como dois diamantes, a me perseguir e cobrar algo belo e delicado. Porque ele tem uma doçura contida, mesclada àquela loucura implacável, que às vezes o derruba pelas madrugadas sem fim. Porque, por vezes, aquela doçura me acalmou, e aquela loucura me levou a lugares que jamais pensaria pisar. Porque os anos passaram, e apesar dos altos e baixos, continuamos juntos, ligados, inteiros. O que aqueles olhos azuis me cobram, não são as palavras que deixei de dizer pela distância, e sim os sorrisos que economizamos neste tempo. Porque praqueles olhos azuis, os dentes brancos foram sempre uma preocupação. Apesar do cigarro. Lembro-me de cada detalhe, meu loirinho castanho. Do camelo em cima da mesa, da fumaça entrando na boca, das lagoas se esvaziando ligeiras. Lagoinhas. Como tenho saudades das mesas de plástico, você não poderia imaginar. Aqui o que há é chopp, ralo como o sangue de barata dos moradores, todos escondidos em suas tocas. Daquela beleza que imaginávamos, só o que resta são as almôndegas, recheadas de silicone e vazio. O que a gente admira aqui é a casca. Recheio eu ainda não encontrei. É por isso que quando volto, quero as mesmas madrugadas, os mesmos infernos, as mesmas baianas. Porque é aí que eu gosto de me engordar. O mundo aqui, meu pequeno, é apenas salada: colorida e insossa. Mas não desanime! Talvez o que me falte sejam apenas as companhias. Talvez se você estivesse aqui, e armássemos a velha lona, talvez a cidade se tornasse de fato maravilhosa. Talvez. Mas é absurdo viver com o medo apontado para a cabeça, e com a bunda como cartão de visitas. O que eu queria agora, se pudesse, era ter as oportunidades que tenho aqui, estando aí, no meio do umbigo das montanhas. No centro do canto dos passarinhos. Se você me perguntasse o que essas terras possuem de mais marcante, eu responderia, sem pestanejar: a maresia e a fumaça de óleo diesel. E, é claro, as buzinas incessantes, que abrem o meu sono quando o cruzamento se fecha. E escrevo essas coisas não porque quero, mas porque, como já disse, as palavras tomam conta de mim. Obviamente, preferiria escrever um texto sobre você, e não para você, como parece que este está se saindo. Se pudesse, contaria a todos que não sei desde quando você faz parte da minha vida, porque tenho a impressão de que você sempre esteve nela. Contaria como mudamos nesses anos, e falaria, obviamente, do sapato de bico quadrado e dos casacos de couro. Não para te provocar, de maneira alguma. Contaria essas coisas para que soubessem que o que somos hoje, depende diretamente do que fomos ontem. Contaria também das minhas tranças, do forró, tilêlêlê. Falaria destas coisas porque são elas que nos fazem farinha desse mesmo saco furado em que nos encontramos hoje. Pudesse eu escolher o que vou dizer, contaria das viagens, daquela casa mal assombrada, dos banhos pelados no mar. Detalharia fielmente aquele quarto, e aquelas varandas, que nos acompanham até hoje. Mas não posso, meu querido. Não sou eu que decido o que os meus dedos vão contar. É por isso que o texto sai meio fraco, capenga. Porque ele tira de dentro, coisas que eu não costumo deixar sair. É por isso que reclamo muito – mas com uma certa poesia, porque as reclamações são vaidosas. Quisera eu sorrir pra você e, de olhar esses olhos azuis, me esquecer de todo o resto e me lembrar apenas do que realmente importa; das noites mal dormidas que passamos juntos, e das ressacas de cigarro que encaramos no dia seguinte. Se não me engano, nos conhecemos desde a época que eu fumava marlborão. Ou Benson & Redges, para ser mais exata. Benga. Nos conhecemos desde antes daquele fatídico telefonema, em que você dizia “tenho uma novidade pra te contar!”. A novidade era notícia velha, nem naquela época venderia jornal. Mas nós, meu querido, nós ainda somos manchete; com nossas inquietações e problemáticas; com a nossa leveza e a nossa ternura. E com essa amizade que, mesmo de longe, me faz sorrir com os olhos; mantém a minha consciência leve; e me faz pensar que é por causa das pessoas que essa vida vale a pena. Não de qualquer pessoa. Mas de pessoas como você, meu loirinho lindo. Pessoas de verdade: que se rasgam de dúvidas e se emocionam com bobagens. Pessoas como nós que, apesar de tudo, ainda brincam de fazer arte...
Porque ele pediu, eu escrevi esse texto.
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