domingo, 26 de outubro de 2008

À toa

Depois de muito tempo, resolvi quebrar uma regra que eu mesma tinha me imposto, e fumei, na madrugada, dentro deste quarto, ainda iluminado. E que surpresa! Tinha me esquecido o quanto fumar a noite auxilia meus pensamentos. Esse relaxamento químico, ouso dizer, me traz inspiração. Mais uma vez, escrevo com música nos ouvidos. É um pouco estranha essa sensação de ser influenciada por palavras de dentro e de fora. Mas é bom. Hoje estou me permitindo a pieguice de fazer coisas ridículas. Nada como um novo teste. Tenho me irritado com os distúrbios de personalidade. Tenho sido muito fiel a mim. De uns tempos pra cá, decidi que dizer as coisas facilita um pouco as relações. Vivo, então, nessa nova versão ainda inacabada, que expõe suas fragilidades, e brinca de ser um pouco mais burra do que realmente é. Adoro deixar as pessoas me explicarem aquilo que já sei! Uma sensação maravilhosa de aprender de outro jeito, de desaprender, de se reciclar. Tenho guardado muito lixo inútil. Mas tenho descoberto sucatas interessantíssimas. Às vezes, nada melhor do que uma colcha de retalhos. Hoje recebi um telefonema tão querido, que estou me culpando pela desatenção. Quem sabe amanhã eu consiga criar um tempo que hoje me escapou. Hoje, também, faltei a um compromisso importante: um encontro conturbado com o outro lado desta minha mesma moeda. Queria ter comparecido, mas o tempo, como já disse, me escorreu por entre os dedos. Adoro perder essa noção. E gosto mais ainda de me perder neste tempo inexato, que cisma em passar cada vez mais depressa. A ampulheta continua sua contagem regressiva, rindo das nossas urgências e impaciências. Cada coisa em sua devida hora. E por favor: uma coisa de cada vez! Tenho mania de misturar tudo em taças longas, e beber de um só trago. Ando bebendo de menos. É da minha natureza, herança de família. Gosto de me embriagar de água nas madrugadas escuras, e acordar com ressaca de neosaldina. Tenho comido demais. Fico com um pouco de medo da indigestão – é fato – mas adoro a antropofagia. Tenho vomitado tudo o que não consegue se tornar parte de mim, e estou num processo intenso de análise e exorcismo do passado. E devo isso a uma conversa sincera, que resultou nesse turbilhão de questionamentos, e em alguns machucados nos cotovelos. Coisa pouca, perto do desentupimento de sinapses em estado quase vegetativo. Estou com preguiça de escrever textos longos. Eles se acabam quando o sorriso no rosto termina. Tenho feito coisas apenas pelo prazer. E deixarei de fazer coisas, em breve, por respeito a mim mesma. Estupros artísticos deixam marcas por toda a eternidade. Não preciso impressionar ninguém. Não quero orgulho, nem admiração alheios. Quero apenas a sinceridade daquela sala no primeiro andar, repleta de presentes sentados por todos os lados. Já ganhei muito nessa vida. Não tenho do que reclamar. Mas hoje, não vou falar de saudades. Estou grata por tudo que conquistei. Por cada telefone, nessa agenda cheia de olhos transbordantes e de braços ansiosos. Bem-vindos, amigos de outros tempos! Estou pronta pra recebê-los. Da minha maneira, é claro. Com uma ironia rasgada, e uma aversão aos costumes. Com um jeito diferente de abordar o mesmo tema. E com uma gargalhada contagiante de quem não faz a menor idéia do que acabou de dizer...

2 comentários:

Marcela Sena disse...

gostei disso!

petrucia finkler disse...

curti muito teu texto. vc tem um talento ótimo de dar voz a seu turbilhão de idéias e fechar no momento exato. quase como bom sexo. ;)
seu bom humor em meio a tantos questionamentos e ansiedades, me faz voltar ao teu blog, de novo, e de novo.
parabéns