Era meia-noite. Passeou por entre as tumbas, e um frio gelado lhe correu a espinha. Teve medo de tudo aquilo não passar de uma cilada. Mas estava confiante. Tinha certeza de que havia sido esperto. Não se deixara enganar. Pelo menos não facilmente. Olhou novamente o relógio e pensou que talvez estivesse atrasado. Ou também podia ter chegado cedo demais. Nunca sabia ao certo qual era a hora exata do encontro. Mas esperou, observando velhas sepulturas, e assustando-se com o movimento inesperado de gatos no cio. Aqueles gemidos lhe eram odiosos, e pensou, por um instante, em desistir. Não queria parecer covarde e, de fato, não o era. Mas algo lhe dizia que aquela situação não terminaria bem. Uma impressão fugidia de que não voltaria a ver as coisas que tanto amava. Tudo lhe ocorria em relâmpagos. Flashs, visões. Uma tontura foi lhe tomando o corpo e sentiu-se embriagado por um aroma fétido que rondava o seu ouvido. Questionou sua sanidade: poderia ficar louco. Às vezes tinha certeza de que tudo aquilo não passava de mais uma de suas invenções. Mas manteve-se firme. Afinal, era ou não era um homem? Desses, com h maiúsculo? Observou as minhocas que não paravam de brotar da terra: fertilidade. Ouviu novamente o ranger da porta de ferro, balançada pelo vento. Um farfalhar de folhas secas espreitando sempre: impaciência. Acendeu um cigarro. Dois. Fumou com se fosse ele o próximo a entrar naquela cova aberta. Fumou muito. Não sabia qual seria o seu próximo cigarro. Decidiu desistir: sim, era prudente. Decidiu o contrário, em seguida. Era sua verdade, ora essas. Mataria a mãe para estar ali – no sentido psicanalítico da coisa. Pensou na mãe: morta, no pai: morto, nos irmãos que nunca teve. Ele era sozinho no mundo. Ia temer a troco de quê? Era sua única chance, e não podia desperdiçá-la. Mas o tempo corria ao longe, deixando murchas suas rosas tão vermelhas. Em cima da sepultura, aquelas flores até pareciam uma oferenda: coisa de santo. Mas ninguém sabia o real significado daquele buquê. A senha. Alguém sabia. E era esse alguém desconhecido que ele esperava enquanto os ponteiros do relógio giravam, e seus dentes batiam de frio. Tudo contribuía para tornar aquele lugar assustador. Aquilo não era certo, ele sabia. Mas precisava provar para si mesmo que era capaz. Precisava deixar de lado o peso da sociedade e começar a preocupar-se com o peso de deus próprios desejos. De suas fantasias. O tempo passava ligeiro, mas ele continuaria ali, de pé. Parado em frente a maior lápide, de anjo, com medo e com frio. E com a pressa alheia de quem espera alguém que se atrasou. Ansioso para encontrá-lo. Ele, por quem tanto esperava...
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Estava cansado e suado quando chegou ao lugar do encontro, ainda alguns minutos antes da hora marcada. O local parecia deserto, como ele esperava. Ensaiou alguns gritos, mas sua voz ficou embargada: talvez fosse respeito. Decidiu caminhar. Por entre as lápides, todas as sombras lhe pareciam assustadoras. O barulho dos gatos o arrepiava e, por vezes, pensou que havia, em algum lugar por ali, uma mulher sendo molestada. Era só o que lhe faltava: testemunhar um crime em uma noite como aquela. Estava sentindo-se um pouco ridículo, com aqueles suspensórios. Aquilo era coisa do tempo de seu avô. Mas alguém lhe entenderia. Perdido por entre aquelas sombras dançantes havia alguém que lhe reconheceria. Um suspensório não era assim tão comum. Pensou em tirá-los, e observar primeiro o garoto do buquê. Não sabia porque tinha escolhido rosas. Na verdade, achava romântico... Quis fantasiar do seu jeito. Afinal, tudo não passava de um delírio romântico que ele queria aproveitar nos mínimos detalhes. Não era fácil, em uma cidade pequena. Pelo menos não para ele. Admirava os outros. Tinha respeito. Mas não conseguia ter aquele desprendimento: não tão fácil. Contou os minutos: por que será que ele demorava tanto? Talvez não viesse – pensou. Mas logo descartou a hipótese. Depois de tantas conversas, não é possível que ele desistiria no último instante. Estavam tão ansiosos. Sentou-se, por um instante, bem de frente ao portão. Era dali que os cabelos encaracolados surgiriam em alguns instantes. Mal conseguia conter sua respiração ofegante. Suspirou. Agora faltava pouco.
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Sentia-se obsceno com aquelas flores na mão em um lugar tão hostil. Era uma cilada, tinha certeza. Deixou as flores sobre a lápide e caminhou até o portão enferrujado, para fumar mais um cigarro. Teve medo, de novo. Não, isso não era desistir. Tinha ido até lá. Tinha esperado. Sentiu-se ridículo, ingênuo, traído. Foi embora sem nem ao menos olhar para trás, e uma lágrima gorda cismou em equilibrar-se nos seus olhos.
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Ainda nada. Já era tempo de ele ter aparecido. Será que tinha chegado mais cedo, e decidido caminhar por entre as árvores e as covas? Decidiu atravessar o cemitério – em linha reta, para não se perder. Levou cerca de cinco minutos até avistar um outro portão. Seria possível? Então era isso, tinham-se desencontrado. Seu coração começou a bater, descompassado. Era uma questão de segundos. Apressou o passo, segurando-se para não correr. Em cima da última lápide antes do portão, um buquê de rosas vermelhas. Lindas rosas. Chamou por ele. Nada. Gritou. Saiu pelo portão, olhando a imensidão da pequena estrada. Nada. Correu por entre os mausoléus em desespero: ele ainda devia estar por ali. Nada. Chorou. Um choro masculino cheio de resignação. Tinha perdido sua melhor chance. Talvez a única. Abatido, abraçou as flores tão delicadas, e pensou como teria sido revelador o encontro. Com cuidado, retirou o suspensório. Depositou-o em cima da mesma lápide, e fez uma curta oração: que a vida se encarregasse de entregá-lo a quem de direito. E que a espera fosse breve. Deu um beijo em sua própria mão, como se beijasse uma criatura querida que vai embora. Deu as costas para o antigo portão de ferro, que rangeu ao sabor do vento. E foi-se embora. Um dia haveriam de se encontrar.
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Depois de andar duas ou mais quadras, sentiu-se tolo de ter ido embora. Poderia ter esperado mais alguns instantes. Ele não era bom com horários, sabia. Poderia muito bem ter se enganado. Decidiu – não sem hesitar – voltar lá e esperar mais alguns minutos. Não seria ele o covarde. Ele era homem, e sabia disso. Caminhou a passos largos – mas lentamente – saboreando seu último cigarro do maço. Será que estava com mau-hálito? Ele já havia dito que não gostava muito do cheiro de cigarros. Mas ele era assim. Sempre fora assim. E queria mostrar sua essência. Naquele dia, não queria se esconder. Era um momento tão bonito: o dia que assumiria seus desejos para si mesmo, e para um outro. Não um outro qualquer: aquele, com quem compartilhava suas inquietações e angústias por noites a fio, separados apenas por uma tela retangular. Aquele, que lhe mostrara que o amor era possível, mesmo à distância. Estava batendo queixos; o frio penetrava-lhe a alma. Cruzou a porta do cemitério, e caminhou até o anjo alado: bonito e altivo como a pureza de seus sentimentos. Mas não avistou flores. Seu buquê não estava lá. Em seu lugar, o suspensório xadrez. Muito menos feio do que ele imaginava. Muito mais doce. Lágrimas inundaram seu olhar, e ele chamou por seu amor, enquanto arrependia-se dolorosamente de ter ido embora. Não podia ter duvidado dele. Não daquele jeito. Ele não armaria uma cilada: ele o amava. Resignou-se com sua inutilidade. Não servia nem para encontros amorosos. Sentiu-se a pior pessoa do mundo. Pensou, ironicamente, em se matar. E foi-se embora, abraçado ao suspensório xadrez. Sua alma oscilava como aqueles quadrados: vermelho, preto, vermelho, preto. Amor e ódio, amor e desilusão.
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A vida é a arte do encontro...
Um comentário:
Que delícia ler este texto.
emocionante, trágico, lindo!
me apaixonei só em ler isto!
bjos
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