Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Tempestade de palavras
Estou inundada de palavras. Elas me preenchem, me completam. Posso vomitá-las, se quiser. Mas por enquanto, tento digeri-las e transformá-las em material orgânico. Adoro esse processo de transformação. Hoje as palavras me saem dos dedos, e não da mente, como há muito tempo não acontecia. O resultado dessa freneticidade só vai ser avaliado ao final da epilepsia. Ouço música enquanto escrevo. Coisa inédita. Vozes ecoando na minha cabeça com mais palavras. Palavras decoradas ao longo do dia tentando se fixar nesse pequeno pedaço intangível; palavras que disse e que deveria ter dito vagando pelo meu corpo. As palavras nadam, divertem-se. Ainda não sei bem qual é a intenção delas. Algo devem estar tramando. E parece que estão seguras de seu plano, pois os dedos se movem com agilidade sobre o teclado. Deliciam-se. São como crianças aprendendo novas brincadeiras, lambendo bolas de sorvete. Ávidas. Tenho um sorriso no rosto. Ando com esse sorriso. Ainda não sei também o seu significado, mas tenho uma ótima sensação. Parece que as coisas estão, enfim, chegando em seu devido lugar. Nada de novidades, devo dizer. Só uma atmosfera interessante, etérea, engraçada. Estamos nos divertindo. Eu e os meus. Estamos brincando juntos de nos conhecer, de nos ajudar. A gente sabe que forma uma boa equipe, mas a gente sempre teve medo de se atrapalhar. Eu a eles e eles a mim. Agora trabalhamos juntos, ainda sem conversar diretamente. Neste exato momento, eles me ajudam. São uma ponte entre as profundezas do meu ser e a tela desse computador. Querido, necessário, companheiro. Descobri que uma máquina, às vezes, pode ser necessária como um amigo a um ser humano. Minha análise, faço nessas linhas. Falo sem pensar, escrevo num brainstorm, na velocidade das minhas inquietações. A saudade se manifesta, as melancolias se mostram, as vergonhas se desnudam. Mostro-me. E me escondo, obviamente. Quem pensa que ao ler essas linhas se aproxima de mim, engana-se. Redondamente. Nunca sou pura nos caracteres. Sou muitas, e os filtros aqui são inúmeros. Adoro estar do outro lado dessa tela retangular, com ícones tão perfeitos e cheios de significado. Com pequenos desenhos sem nexo que formam um sentido completamente lógico na cabeça dos olhos que os acompanham. O ser humano é mesmo espetacular. Na minha cabeça, limitando todos os outros sons do mundo, um zé pretinho qualquer. Animado, dançante, crioulo. Fazendo a mediação do que eu sei e do que eu desconheço. Do que esta dentro, mas me foge ao domínio. Uma vontade absurda de transformar-me em água; de liberar um peso que já não me é mais necessário. As prioridades se confundem nesse descontrole. Ainda não sei o que quero. Mas quero demais. Quero sempre e quero agora. Permeada por todos os que passaram antes de mim, vou seguindo o caminho. Cada um faz o seu. As pedras e os buracos, tratemos de ultrapassá-los. Afinal, o que seria de nós sem a pior parte? É no fundo escuro do poço que descobrimos como é boa a luz ao ar livre. E dia após dia, vamos tentando respirar esse ar, em meio ao trânsito e à poluição. Cada dia mais sufocados pela lama que nós próprios produzimos. Sujeira fonética, no meu caso. Fonemas e mais fonemas perdidos nesse espaço onírico. Há quem os recolha e os recicle, mas creio que grande parte desse lixo fique por milhares de anos carregando e poluindo uma rede que jamais será limpa por ninguém. A gente morre e o lixo fica. Os prédios ficam, os carros, os filhos, o sobrenome. Fotos amareladas no fundo de alguma gaveta, esquecidas, perdidas, capazes de provocar sorrisos ou lágrimas na hora da descoberta. Somos apenas corpos no espaço. Corpos complexos, que tentam colocar o espaço a seu favor. E ele sempre a nos engolir. Nos ludibriar. Gostamos de certos engodos. Tenho saudades de Deus. Eu um dia o conheci. Você também, creio eu. Será que tornarei a encontrá-lo? Deus era um serzinho bem engraçado. Espertinho... até hoje tento imitar sua ironia. Inteligentíssima. Ele é o tipo de cara que nunca conta piadas, e ri de suas próprias desgraças. Serzinho competente. Bem diferente desses espalhados por aí, que vivem se comparando a ele. Patéticos. A humanidade é cheia de patetas patéticos. Risíveis. Adoro cada um deles: com suas escatologias e arrogâncias. Com seus documentos e contas bancárias. Ah, se eles soubessem que nada disso faz o menor sentido. Que não há sentido. Que o verdadeiro sentido é apenas sentir... mas eles não sabem. Eu também não sei. Se soubesse, estaria morta. É um segredo daqueles de filmes de gangster. De vida ou morte. De sorte. Acaso. Ao caso. Ocaso. Ou pôr-do-sol, num dia frio, com o céu róseo. Sentado na areia, com os bolsos cheios de nada, e os ouvidos cheios de vento. Na praia. Ao vento sul. Com aquele sorriso no rosto, e aquele charme na cabeça. Sabe aquele homem? Então. O charme dele. O que o outro não tem e acha que tem, e o que ele tem e nem sabe. Naquele abdome talhado à perfeição, sem nenhum esforço aparente. Naquele cabelo raspado e naquelas covinhas. Nos sorrimos. Com os olhos. Com os braços. Gosto de imaginá-lo mais perto. A gente acha graça. O que não existe, a gente inventa. E depois desinventa, quando for necessário. Antiviral, antibiótico. Antimonotonia. Mentiras criadas para passar esse nosso tempo escasso. Para que pareçamos mais interessantes e menos solitários. Mais duradouros. Menos mortais. Sou um balde de fragilidade vazando por diversos furos. Mas agora sou uma fragilidade assumida, com a cabeça levantada e um brilho nos olhos. Sou apenas o projeto do que eu ainda vou me tornar. Um dia depois do outro, com calma. Organizadamente, como uma boa estrutura sólida. Sou a soma do que eu tenho e do que me falta. Dos lábios e das lágrimas. E dos dedos. Que bailam, trazendo pra fora o que um dia alguém escondeu.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
ai que saudade de suas palavras!
muito bom!
bjo no braço esquerdo
Postar um comentário