quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Peripécias Aquáticas

Tinha acordado meio melancólica naquele dia. Sabia que as coisas dariam errado. Era fatalista, sempre fora. Mas dessa vez, ela tinha razão. Não havia como dar certo. Por isso levantou-se meio sem graça, e com o mundo pesando-lhe sobre as costas, entrou na banheira de água quente, repleta de espumas coloridas. Afogou-se, como fazia sempre. E acordou no meio do banco, com o chefe lhe gritando nas orelhas. Ela odiava aquele chefe. Lindo. Olhou-o provocantemente nos olhos e sorriu para suas ofensas. Ele perdeu a compostura. Seu pau subiu. Eles foram para o banheiro. Enquanto ele tentava disfarçar lavando as mãos, ela mergulhou na privada. Ele nem notou. Quando deu por si, estava no meio de um parque, numa temperatura primaveril agradável. Não gostava das flores, era dada às folhas secas. Mas mesmo assim resolveu colocar uma no cabelo. Sentiu-se cafona, e de fato estava. Caminhou por entre as trilhas de barro, até se sujar por completo. Teve asco de si mesma, e resolveu nadar na fonte. Acordou no meio de um terremoto, em algum lugar do pacífico. Teve ódio de si mesma, não deveria ter saído da cama. Tentou ligar para o marido, mas o celular estava sem sinal. Tanto melhor. Ela não teria créditos para um interurbano daquele porte. Manteve-se agarrada aos joelhos, embaixo da mesa, até as paredes terminarem de ruir. Ela sempre havia gostado de mármore. Por entre os escombros, avistou anões e piratas, todos envoltos em uma baba espessa e gosmenta. Sentiu aquela substância parada em sua garganta, e teve necessidade de um copo de água. Gelado. Suado. Correu por entre as ruas destruídas até se deparar com um hidrante rompido. Desistiu da sede. Tirou a roupa e dançou pelada com indigentes que se solidarizaram. Foi engolida pelo bueiro, e acordou no Senegal. Encantou-se com tanta beleza e não soube se expressar. Ficou muda. Horas e horas de eterno silêncio. Com movimentos hilários, atraiu as tranças de um senegalês e o levou para uma praça. Amaram-se no chafariz. Sem querer, confundiu o membro do negro, com o da estátua angelical, e foi parar em pleno céu. Tudo muito etéreo, pensou. Teve medo de cair. Começou a juntar pedaços pequenos de nuvens, até que elas se tornassem só uma: sólida, espessa, negra. Fora ela a responsável pelo dilúvio: que Noé nunca descubra. E choveu. Por dias e noites, choveu junto com as gotas armazenadas, caindo nos mais diversos locais. Correu mundo. Ventou. Mas acabou encontrando todas as partes de si no fundo de um oceano, onde termina essa nossa história.

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