terça-feira, 7 de outubro de 2008

Umbigo

Corre que o mundo te espera! – disse o diabo ao umbigo. E o umbigo lá, pra dentro, escondido. O umbigo guardado, enrustido, com vergonha de se exibir. Até que um dia teve uma hérnia, que o jogou mundo adentro. Arregaçado, dolorido. E ele foi, sem ter qualquer alternativa. Jogou-se no mundo, o danado do umbigo. E foi feliz. Roçou outras tantas barrigas que jamais pensara em encostar; entrou em lugares desconhecidos, ficou submerso em água. E gostou. Nem de longe, havia pensado que ser umbigo era tão divertido. Desfrutou de pontos de vista quase únicos, brincou com membros avantajados, melecou-se de baba que caía do alto. E se escondeu, novamente, em seu buraco esconderijo. Passou lá dentro dias e dias refletindo sobre a esbórnia vivida. E decidiu-se pela clausura. Sentiu-se pecador. Por anos e anos, rezou em sua escuridão silenciosa, pedindo perdão por suas falhas e pecados. Até que ficou velho, e uma nova hérnia lançou-lhe novamente no mundo. Estava diferente, este mundo. Muito mais interessante e pecaminoso. Divertiu-se, se esbaldou. Arrependeu-se a cada minuto de um arrependimento delicioso, com gosto de quero-mais. Lambuzou-se de maneiras inomináveis, até que uma infecção generalizada levou-o à morte. Depois de carcomido pela terra, chegou ao além. Procurou deus, na esperança de redimir-se e alcançar o descanso eterno. Mas deus era cruel, com suas barbas longas, e suas feições arianas. Ofereceu-lhe como opção uma joelheira de milho, e milhões de orações, que deveriam ser repetidas por toda a eternidade. Esta era a paz eterna: ao lado direito de deus, com os joelhos no chão, entoando cânticos em seu louvor. Encolheu-se novamente, para dentro de seu buraco sombrio, o umbigo. E decidiu espairecer, antes de entregar-se a seu eterno calvário. Avistou, porém, o danado do diabo, a fumar um cigarrinho de palha em uma cadeira de balanço. Velho, negro, com os cabelos grisalhos e um sorriso bondoso, o demo lhe disse: faze o que quiseres, meu filho! isso não passa de uma eterna ilusão. E o umbigo, satisfeito pôs-se a manejar o fumo de rolo, para seu prazer relaxante, que duraria milênios. Travestido, o diabo tornou-se deus, e o próprio deus desceu ao inferno, queimando em longas labaredas, que aqueciam suavemente a brancura das nuvens. Moral da história: nem tudo que reluz é ouro. Ou: por fora, bela viola...

Divirtam-se!

2 comentários:

Marcela Sena disse...

to adorando seu blog!
que momento bom!
o diabo me mordeu esses dias!
tenho que te contar isso...
beijos

Flávia Prosdocimi disse...

engraçado vc dizer isso... tenho achado os textos péssimos. mas você sabe como é: parei de me censurar. escrevo e publico. e que bom que vc gosta! tô com saudades. bjobjo