sábado, 18 de outubro de 2008

O choro

É noite em Copacabana. No apartamento, sem água, duas cigarras gritam. A bagunça, inaceitável, se espalha pelos cômodos. Óculos jogados, copos sujos, roupas esquecidas. Não sabia como detestava a desordem. Seu espaço era sagrado. Não gostava de ceder lugar aos outros, e a falta de privacidade lhe doía na cabeça. Tinha se esquecido de como é viver junto, na falta de respeito. O respeito é fundamental – pensou. Mas nas relações de longo tempo ele se desfaz, como pequenas gotas enchendo uma banheira por anos. Um dia transborda. Estava impaciente: com a cidade, com os problemas, com as reclamações. Se não pode resolver, por favor não reclame! Quem não é dono dos problemas sempre tem alguma solução melhor do que a encontrada pelos donos, certo? Errado. Não passam de palpiteiros. Não entendia o porquê do convite. Tinha sido um erro, de fato. Mas já estava feito, só restava se divertir. O programa do dia tinha sido atropelado pelos imprevistos administrativos: nada que se pudesse prever. E agora, nesse silêncio pesado, sentia uma imensa falta da solidão. Gostava de se sentir sozinha, de se sentir em paz. Perto dos outros, os problemas ecoam. Eles são como paredes. Perdidos no espaço infinito, as preocupações só se manifestam quando são de fato importantes. Tinha saudades do pai. Amava-o tanto, com uma admiração tão profunda, que teve medo de nunca conseguir expressar-se corretamente. Ele não podia imaginar tudo o que fazia por ela. Era grata de uma maneira tão intensa e pura, que sonhava em poder, um dia, retribuir de forma adequada. Era uma fortaleza, o pai. Um rochedo, que apesar da força da maré, nem pensava em desmoronar. Tinha uma saudade intensa de quem tinha sido ao lado daquelas pessoas. Mas não o era mais. E o que se tornara era tão melhor, tão bem estruturado, que teve pena da transformação não ter sido feita em conjunto. Eles não entendiam. Olhavam a mulher, e enxergavam a menina. Assistiam às decisões como se fossem caprichos. Eles não podiam imaginar a vida que ela levava. Difícil, controlada. Estava cansada de viver dentro dos limites. Será que um dia ela teria o direito de se rebelar? Teve vontade de ser inconseqüente, pelo menos por uma vez. Nunca se dera ao direito. Todos os riscos que assumia eram extremamente bem calculados. Teve vontade de se jogar no abismo por pelo menos uma vez. De infringir a lei, de se envergonhar. Quis ter uma ressaca moral que lhe mantivesse embaixo do edredom por dias. Mas era certinha. Honestinha. Caretinha. Quis se endividar, fazer compras, se divertir! Precisava comprar tanta coisa... Não agüentava mais as mesmas roupas no espelho, os mesmos tênis fedendo a mofo, os velhos celulares descascados e interrompidos. Não estava feliz fazendo comédia. Não estava achando graça. Mas tinha vendido sua arte. Vendido por umas cervejas e uma pequena dose de adrenalina. Estava gostando de se fuder, no pior dos sentidos. Queria se estrepar, pra mostrar a todos o quanto era fracassada; o quanto tinha dado errado. Voltava tarde da noite, pelas ruas escuras e desertas; nos ônibus cheios de marginais; tentando acordar do pesadelo, tentando se encontrar no barulho das buzinas. Estava insegura, a atriz. Não queria ser um fardo pra ninguém. Vergonha, prejuízo. Não tinha vergonha de suas escolhas, nem de suas dificuldades. Para si, achava até interessante o momento, o aprendizado, a estrada. Mas estava cansada de lhe jogarem na cara o seu insucesso financeiro. Dinheiro é tudo? É? Quer saber: ela era bem mais feliz quando gastava menos e sorria mais. O dinheiro só é bom, quando é fonte de inspiração...

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