quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Depois do banho

Se você soubesse como estou vestida agora, com certeza sairia deste seu quarto escuro, e viria repousar os pêlos nos meus cabelos, ainda molhados. Algum tempo se passou, a gente sabe. E nada melhor do que o tempo para acalmar as feridas e despertar os desejos. Pergunto-me se aquelas lágrimas valeram a pena. Eu, por mim, ainda prefiro este sorriso que tenho agora. Este sorriso molhado, que inunda a casa, e molha as minhas pernas, ainda nuas. Há um som diferente na respiração desse lugar. Algo de calmo e maduro, que floresceu desde que você se foi. As plantas tomam conta das paredes, e um jardim florido enfeita a casa da minha alma. Há paz por aqui. Os caminhos vão sendo abertos em meio à mata virgem e, em cada investida, novos paraísos são descobertos. Eu sei, você queria fazer parte desta expedição. Mas seu passaporte foi negado, houve problema com o visto, eu não quis deixar você entrar. Agora, sua partida é apenas mais uma página deste livro inacabado, e embora você tente voltar pra história, seu personagem perdeu o sentido. Algumas páginas se perderam. Espero que encontre um outro autor competente, que lhe faça um romance, um best-seller. Posso até lhe indicar alguns, se quiser experimentar. Mas há de ser rápido: ainda tenho milhares de flores para regar. O bosque criou raízes, e por mais que a chuva não pare, não há avalanche que o tire daqui. O bosque é a paz, perdida entre nomes próprios e rostos familiares. É a letra que já foi cantada e se esqueceu. Há um tom conservador, nessa natureza do Éden, mas perdi a vontade de ser vanguardista. Só não me contento com a arte descritiva. Gosto da abstração. Mas isso é coisa da década de 20. Antropofagia. Peço desculpas se comi você. Mas foi inevitável. Digeri aquilo que me era necessário, e devolvi-lhe ao mundo, também com um pedaço de mim. Não se compadeça de si mesmo. A troca foi justa. Você só precisa me deixar ir embora. Eu já estou aqui, e você não sabe. Não se apegue tanto a esse pedacinho de mim: eu também tenho milhares de pedaços presos comigo. Mas eles formam uma linda colcha de retalhos: colorida e inspiradora, como cada momento da colheita. Desses pedaços, apenas o primeiro me entristece. Mas a matéria-prima dele se perdeu pelas ruas, como pequenas gotas de orvalho. Continuo plantando o jardim. E há tantas flores ainda por regar... Sou refém das reticências. Vivo o que ainda está por vir. Sou o brilho da aurora e a promessa do ocaso. A linha contínua que começa no nada e termina no além. Sou apenas mais um botão de rosa neste jardim suspenso. O que ainda não foi, e o que logo vai deixar de ser. E o que é, agora. Meu tempo é quando.

2 comentários:

petrucia finkler disse...

curti muito esse texto. forte e centrado. Dona de si. Rainha do seu mundo. :) Vou repassar para uma amiga minha que vai saber apreciar muito essas sensações traduzidas em palavras que se aplicam também a ela.

Marcela Sena disse...

Lindo texto!