Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
De longe
De tudo, o que mais lhe doía era a solidão. Uma sensação estranha de estar perto e longe ao mesmo tempo. Sinestesias. Impressionava-se com a solidão das pessoas, e se irritava com a aproximação delas. Como dissera um amigo, ela fazia questão de mostrar a todos que não queria conhecer pessoas novas. Mas elas insistiam. Ah, como insistiam! Desculpe-me, mas não vou ao cinema com você. Não vou ao teatro, nem a um café, não vou a parte alguma – tinha vontade de dizer-lhes em inúmeros momentos. Mas era polida, a atriz. Era reclamona, por vezes até ríspida; mas nunca chegava a ser mal educada. Pelo menos não tanto quanto gostaria. Algumas pessoas, em particular, lhe tiravam a paciência. Não tinha tempo para as carências alheias, e nem queria perder seu tempo com aqueles que lhe pareciam desinteressantes. Como as pessoas por lá eram desinteressantes! Cheias de cabelos modernos, roupas descoladas, e nenhum conteúdo. Era isso. O que lhe incomodava sobremaneira era a falta de conteúdo. Quando as conversas não eram recheadas de abobrinhas, eram baseadas num silêncio incômodo. Silêncios de quem não tem nada a dizer. A convivência com esse tipo de pessoa era obrigatória – contingências do ofício. Mas a cada nova frase, sua paciência ia escorrendo pelas orelhas. Tinha uma saudade arrebatadora dos queridos amigos. Dos de verdade, dos emocionantes. Eram poucos esses. Poucos, necessários, e mais do que suficientes. Sentia falta do tempo em que se reuniam todos, naquela pequena sala escura; na varanda com balinhas de vidro. Era nestes momentos que se sentia mais em casa. Ao lado dos seus – dos que escolhera para si. E agora, perdida num labirinto de prédios, se questionava sobre a necessidade da distância. Em momento algum cogitava a volta. Mas como tinha necessidade daquelas pessoas! Ah, como era cruel a saudade! Mas aprendera a viver sem eles, e desfrutava de uma agradável companhia nova: a sua própria companhia. Sabia mais de si do que outrora. Conhecia suas instabilidades e suas perversões. Suas alegrias e rebeldias. Sentia falta também daquele toquinho de gente. Nem aprendera a falar, ainda, mas assustava-lhe a possibilidade de ele não se lembrar de seu nome. A infância perdida é um roubo cruel, de impossível devolução. Quantos passos perdia, quantas palavras, quantas novas descobertas? Sentia saudades também da prima. Como será que ia a barriga, a cabeça, os enjôos? Estava perto, mesmo de longe, mas sabia que a distância lhe furtava a companhia. Os desabafos. Tinha vontade de fazer parte de um passado que agora já não lhe pertencia. Mas não queria abandonar o presente. Em momento algum pensava em abandoná-lo. E ia divertindo-se, aos poucos, com sorrisos inventados, lágrimas forçadas, problemas adquiridos. Era atriz, afinal. Estava acostumada a falsear emoções. A mais comum era o amor. Inventava inícios de paixões como ninguém. Vivia delas por um tempo escasso, e depois se esquecia. Não sabia inventar um fim: nunca o soube. Desfechos eram complicados para ela. Ela, que sempre soube começar; que vivia intensamente; que gostava de surpreender. Ela gostava era do desenvolvimento, do desenrolar, do enquanto. Nunca soube muito bem identificar quando as coisas chegavam ao fim. O fim, para ela, sempre era parte do processo, algo perdido entre o início e o recomeço. Gostava das transformações, a atriz. De amor para amigo, de amigo para parente, de parente para colega, de colega para desconhecido. E ela girando, no centro da roda do mundo. Girando em torno de si mesma, como uma louca regenerada. Da família, sentia uma falta pouca, porque nunca havia conseguido desgrudar-se dela de fato. A família era o que tinha em si e que não fora inventado. Velhos preceitos ultrapassados, velhas intermináveis discussões, velhas comidas de domingo. Será que eles percebiam que ela havia mudado? Será que ela percebia a mudança deles? Do pai, sentia uma falta doída, de quem queria aproveitar mais um tempo que nunca teve. Da mãe, sentia o peso da dor nas costas, e a boca seca de tanto falar. Como sentia falta das conversas. Estavam envelhecendo, os pais. Percebia isso porque estavam cada vez mais lúcidos. Cada vez tentando acertar mais um pouco, ao invés de insistirem no caminho errado de sempre. Estavam precisando de um neto, os pais. Mas ela não lhes daria isso agora: presente guardado na caixa por mais alguns anos. A família já começara a se renovar. Aos poucos, chegaria sua hora. Pensando em todos, assim, calmamente, percebia o quanto era boa a distância. O quanto a falta esclarece a presença, e valoriza o momento. Estava cheia de saudades, a atriz. Mais uma vez, só lhe faltava seis dias para o reencontro. Mas os dias escorriam lentos, como baba de criança nova. Como a lágrima, que se diverte ao tocar o rosto. E como essa chuva fina que, por aqui, não pára de cair.
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Um comentário:
que sucesso esse texto!
gostei!
=)
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