O peito anda tão em quietude que às vezes fica complicado colocar pra fora as angústias que se escondem sob a superfície calma de minh’alma. Por entre os olhos, apenas uma certeza convicta da força do sentimento que nos assola. Sinto, de fato, ter provocado lágrimas pela perda, ter apressado o passo, ter sido tão consciente nas atitudes. É uma pena, eu sei. Mas cada indivíduo sabe, em seu recheio, a lança precisa que o lacera. E entendendo assim cada sofrimento alheio, espalho migalhas para que não se percam os amigos e, vez por outra, recebo em minha caixa virtual mensagens gratificantes, como a de outro dia. No chão, as folhas do calendário rasgadas figuram em uma pilha de horas perdidas. Infelizmente, todo aquele monte virou lixo, aproveitado em alguns momentos por sentimentos de extrema ternura. Na natureza nada se perde, dizem. Por isso, lampejos de antigas inquietações acabam se tornando belos amores fraternos, que florescem ainda em campos inférteis. Olhando pra frente, o futuro se apresenta como uma floresta inóspita, melindrosa em sua escuridão. Com metas certeiras, tento tirar de dentro esta bússola desalinhada, que cisma em me mostrar um norte às avessas, sempre em oposição ao meu querer. Tenho vivido dias de saudades contidas, na suspeita de que em breve todos os abraços se darão. Mas, ao mesmo tempo, quando me deparo com o espelho e vejo como os dias têm passado por mim, fico com a impressão fugidia de que o tempo não me tem sido muito gentil.
Contudo, contemplando esta cara amassada e essas olheiras profundas, admito, com alguma pena, minha parcela de culpa em meu descompasso. Tenho tido muito sono de manhã... E o dia apressado, que acorda antes que eu possa me recompor, apresenta-se sorridente, jogando-me ainda à face a necessidade de levantar e produzir. Algo a mais que suor e sorrisos. E assim, ainda entre os lençóis do dia que passou, calço as minhas botas de sete léguas rumo a um acaso incerto, que me apavorará depois do silêncio dos sonhos. Por ora sou princesa, senhora de castelos e ruínas. Vou à Fontana di Trevi fazer um pedido para o porvir. Em meu pulso, um ponto certeiro ainda indefinido no alto do mapa, símbolo máximo das minhas origens. Na cabeça, a coroa da liberdade encerrando, sem culpa, um ciclo de fé e de desencanto. Nos lábios, a vida. E no peito, a paz.
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