quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Vomitocrasia

Há definitivamente uma aura estranha de efusividade a rodear as minhas idéias. Com os dedos ainda em pedra, uso dois pés esquerdos para valsar no teclado. O penseiro eloqüente, guimaraneando verbetes. As palavras, insuficientes para me expressar, amalgamam-se formando outras: neologismos. No dicionário verde de minh’alma parda, procuro significados certeiros pro que se passa em meus poros. Misto de suor e arrepio, de certeza e saudade. Já sufoquei palavras pelo desgaste e denegri outras pelo desuso. Agora, só me basta o tempo – gentil pensador da minha irrealidade. E assim, traçando linhas ao vento, desenho estradas compridas e sem curvas, que me levam direto ao destino iminente: ameaça sutil de meu descompasso. Há tempos não ouço acordes cantarolados aos ouvidos e nem tenho certeza se as auréolas, por sua vez, encontraram prazer em notas tão dissonantes. Ao longe, uma leve – mas agressiva – desafinada. Alto volume a molhar as paredes das casas ainda inundadas. Senhores e crianças a varrer com piaçava a lama que invade seus corpos e os agride entrando por orifícios indesejados. De longe, os jovens a gozar de sua irresistível presteza. Imóveis e intactos como estátuas de ceras líquidas. Perto dos olhos, a gota escorrendo remorso apenas para mostrar que por dentro há sangue. Não há nada que impeça um homem de se empedrar. E não há mulher que consiga refrescar um coração em chamas. Refletindo-se nas pupilas dos olhos intangíveis, o espelho nos joga na cara o outro, flanando ligeiro por entre nossas próprias vielas. Ruas de sincerocídio e falsimento. Por perto dos carros, pés-patins a usufruir de suas próprias rodas: humanos correndo uns dos outros, perdendo-se nos desencontros. O que há em si é brasa. Massa de barro e água, que se molda à medida que mãos mornas se encontram. Barro doce, reflexo poético de desejos e desilusões. Como massa de modelar, a vida se tornando colorida: loiro como amarelo, pele como pêssego. Do outro lado, rugas. Marcas de freada no chão da pele. Sombras de passados próximos esquecidos e rememorados. Ruídos confusos de estrofes censuradas. E com caneta em punhos, risco frases inteiras de palavras sem sentido: nexo necessário à liberação do autor. Caracteres sobreponentes. Características só prepotentes. E linhas e linhas de nada.

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