Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Entre nuvens
Já se passaram algumas horas desde que você se foi e, no entanto, ainda não consigo saber exatamente qual a extensão da minha perda. De longe, vejo olhos coloridos sorrindo da minha desgraça – doce vingança de uma desilusão amorosa qualquer. De perto, apenas uma cama já fria, retrato inexato de uma ruptura completamente acidental. Olho no relógio e não sei precisar o tempo. Andamos em descompasso, presos a um fuso-horário maluco que cisma em mudar a cada passo que dou. Aqui, do alto, vejo nuvens brancas embaixo de um sol imenso, mas sei que, de baixo, o que se vê é um céu cinzento, ameaçador; resenha final da sua angústia solidão. Pensei em escrever um bilhete hoje. Deixá-lo pregado em seu pára-brisa apenas para tentar conter a ventania que te assola. Mas saí apressada, fugindo da imensa nuvem radioativa que pairava sobre a minha cabeça e acabei deixando pra mais tarde a minha delicadeza de mulher. Nos olhos, tristes memórias premonitórias que custam a acontecer. Flores coloridas impedindo o abraço, beijos saudosos, reconhecimento de corpos. Você não sabe exatamente quanto sangue corre em minhas veias enquanto teço essas linhas confusas, que me saem aos saltos do peito. Olhando aqueles cômodos ocos, hoje, tive certeza absoluta de quantas histórias ainda podemos construir. É naquele grande vazio – pequenos quadrados de esperança – que mora nosso futuro-mistério. A vida acontecendo aos sobressaltos, no compasso da nossa astúcia. Acordo. Olho para o lado. Há algumas horas você se foi. No travesseiro, nem ao menos o cheiro do seu suor, nenhuma memória física da sua passagem por mim. Tento tirar o sono dos olhos, mas o quarto, ainda em sombras, insiste inutilmente em me acalmar, deixando nas frestas a sensação de frio na barriga. Eu ainda não sei quando você se foi. Não sei quanto tempo você ainda ficará distante. Mas sei que te guardo dentro, perto. E que os meus olhos ainda carregam, pesados, ternos reflexos da sua indecisão.
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