Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Ter
Eis que surge, assim de repente, uma vontade inata de permanecer inerte. Isolada. Apenas olhando aqueles ruivos pêlos espessos, que brotam de dentro do outro; do profundo lugar distante daquele que eu não conheço. E perdida assim entre as vielas da minha imaginação, vou dando forma àquele contorno tão volátil, moldando-o à imagem e semelhança das minhas maiores expectativas. As palavras são rainhas da relação. E, entonações a parte, as linhas traçadas vão preenchendo um caderno H, relacionando pensamentos e brevidades. A vida se faz no tempo. Presa no lapso dos desencontros, sofro por encontrar gente demais em espaço de menos. Tenho um coração quitinete, que me força a abrigar apenas um convidado por vez. Fosse eu mais pobre de espírito, abriria a casa, as janelas, encheria os espaços com colchonetes e abrigaria o mundo de barbas e cabeças. Mas meu espaço é pequeno, e eu preciso de conforto. Debatendo-se na porta, dois gladiadores ainda tentam entrar. Vivo num tempo de paz. Sentada no sofá da dúvida, tenho certezas absurdas e questiono a racionalidade do tempo, esse pai austero que nos devora. Cada um em sua ótica, ambos poderiam entrar e se estabelecer – pelo menos por um tempo. Mas assim, juntos, características se sobrepõem e me obrigam à escolha, cruel e fatal para um dos combatentes. Com a cicuta em mãos, aguardo, ansiosa, o fim da regressiva. A opção já foi feita, enfim. Mas as badaladas ainda insistem em atrasar meus passos. Uma dor lancinante me derruba na cama longe das frases e dos olhos. Solta em meu próprio universo, começo a reconstruir as estruturas; preparo o terreno para um novo abrigo. Presa em meu próprio universo, conto os compassos apressada, ansiando pelo fim do começo. Com batimentos cardíacos acelerados e desconexos, passeio pelas repetidas imagens de solidão e me compadeço dos finais prematuros. A vida é, enfim, uma grande teia de moscas mortas; emaranhado de fósseis deixados pelos caminhos. Terminando de se formar, crisálidas mudam de status e começam a lançar cores pelos céus. O espetáculo só durará alguns instantes, mas será belo e surpreendente. Por ora, só podemos desenhar o início; o fim nos escorre pelos dedos. A vida é mesmo uma revoada de borboletas!
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