Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
A Coisa.
Era assim. Uma coisa meio certa, meio errada. Uma coisa estranha. Uma coisa, enfim. Era assim que era, e era assim que ela parecia quando se olhava pra ela de cima, distante, tentando reconhecer suas formas pelo volume que se projetava no espaço. Uma coisa. Nem bonita nem feia, nem grande nem pequena, nem assustadora nem dócil. Uma coisa calma. Imóvel. Parada. Mas por olhá-la assim, por tanto tempo e com tanto afinco, a garota por fim achou que ela parecia mover-se. No início tentava escorrer pelo ralo, depois dilatava, ocupando ainda mais espaço do que o possível dentro daquele recipiente pulsante, tingido de vermelho sangue, ainda a pingar do buraco da blusa. Então era assim que se parecia – pensou. Uma coisa, e nada mais. E ao pensar isso, a coisa transformou-se em coisas outras, subdividindo-se em pequenos grupos que se permeavam. Às vezes, um pedaço pequeno fazia-se grande, mas logo depois voltava a murchar, seco, e morria sozinho, sem que ninguém o tocasse. Às vezes, um grande exemplar estrebuchava ruidoso, deixando claro o assassinato violento que o acometia por motivo qualquer. A coisa, apesar de coisa, era viva. Vez por outra, um pedaço mantinha seu tamanho – até ameaçava crescer – mas mudava de cor repentinamente, ficando pálido e triste para, depois, irradiar sua vermelhidão intensa, a contagiar todos os róseos ao seu redor. Quando isso acontecia, ficava claro que alguma dúvida assolava a matéria, que choramingava calada, sem nem mesmo saber o motivo. Bailando todos os pequenos grupos no mesmo compasso estacado, arritmias inesperadas traziam surpresa àquele espetáculo quase jazzístico. Quando enfim achou que já tinha visto todas as combinações possíveis de vermelho-branco e de pulsa-e-pára, a coisa reorganizou-se de maneira surpreendente, mostrando à menina que, como coisa que era, aquilo era mesmo sem explicação. Centenas de milhares de curiosos, como ela, já haviam tentado definir a coisa antes. Mas ela, indefinível, continuava a arrebatar curiosos e covardes, intelectuais e donas de casa, maus-caracteres e heróis. A coisa é mesmo indefectível – pensou. Mutante que era, transformava-se continuamente. E pior: multiplicava-se, excedendo o tamanho do recipiente em volume mas, ainda assim, mantendo-se etérea e cabendo dentro de si. É... coisas são mesmo enigmáticas - concluiu. E decidiu não mais tentar cartografar o assunto que, guardado dentro do buraco do peito, viveu com ela até sua morte, acendendo-se e extinguindo-se incessante, ao sabor de suas próprias vontades. Morreu junto com ela, a coisa. Mas viveu ainda nos outros. E morreu também quando os outros morreram, vivendo então nos outros que sobraram. É. A coisa era mesmo indestrutível...
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário