Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Presentinho
A vida acontece no atropelo. Um dia você acorda estranhamente irritada e percebe que não há nada que você possa fazer pra transformar sua realidade. Você se resigna, trabalha, descansa e, no fim do dia, resolve comemorar a tristeza de mais um aniversário, de saudade dos amigos, de conquistas esparsas e de frustrações, enfim. Aí você desce do taxi, acende um cigarro, e toma fôlego para agüentar os sorrisos, os cumprimentos, as falsidades. Mas alheio ao seu mau-humor, está o mundo. Repleto de possibilidades confusas, de amigos queridos, de abraços sinceros e de mistério. Ali, bem perto. Parado no canto do bar. Escondido sob uma barba espessa, o mistério. Propulsor de questionamentos estranhos, de olhares diretos. Então você sorri. De longe, sorri. E a vida passa em instantes a parecer mais divertida. A cerveja mais gelada, o cigarro ainda mais saboroso. Você passeia por entre as pessoas e elas parecem ter graça, enfim. Você bailando sobre seus saltos, que incomodam sutilmente seus suaves pés; você rodando pelo salão, encontrando prezados sorrisos e desconhecidos olhares. Aí você se cansa um pouco, embriagada pela bebida e pelos pensamentos. Pára, respira fundo, e vai lavar o rosto. Subindo pelas escadas, depara-se de novo com o mistério, estrategicamente colocado no topo, à esquerda, como uma sombra que lhe observa. Você segue para o banheiro, abre a torneira, e a água escorrendo por sua face cria riscos negros e verticais. Lágrimas forjadas do seu desespero. Você se arruma, confiante. Seus olhos no espelho te fazem de novo acreditar no dia; ter vontade de colhê-lo, assim, sem motivo. E você decide voltar. Ainda em cima dos saltos, você decide fazer de novo parte daquela festa. Mas é agarrada pelo mistério, surpreendida pelo acaso, inebriada pelo futuro. E agora, algum tempo depois, você descobre-se ainda mais presa nessa teia. Completamente envolta no desespero, sentindo uma angústia inexata e profunda, misto de paixão e pavor. E se aceita cada dia mais envolvida, e delicia os pequenos momentos, comemora as sutis vitórias e ignora a possibilidade do fim. Talvez pela primeira vez, você aceita a felicidade como um estado constante, sorri sozinha em momentos inusitados, contempla por horas a calma do sono alheio. Você está presa. E tão imensamente livre, tão absurdamente estática, tão profundamente extasiada... Você de novo acredita. Em nada. E em tudo. Você sempre confiou no acaso. Você, por ora, tem aquela certeza absoluta. Aquela certeza esmagadora de que encontrou o seu lugar.
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