Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Da noite
É à noite que escrevo mais. Poderia dizer que é por causa do silêncio, da calmaria, mas seria apenas um jargão. Na minha casa, nunca há silêncio. Nem na de dentro nem na de fora. Pela janela, sons de buzinas varam a noite. Freadas de carros, pneus no asfalto. Fragmentos de conversa de bêbado pelo vidro das horas. No peito, o barulho do que nunca passa e a angústia do que não vem. A cabeça poluída de palavras e impressões. O silêncio absoluto seria esmagador -- penso. Gosto da confusão ruidosa, do baralho fonético. Mas gosto dele apenas à noite. De dia, o sol inunda tudo. Só no escuro é que consigo saber o real contorno dos objetos. Adoro os pontos de luz -- cada um com sua intensidade e função. Por dentro não durmo nunca: acho. Terei a morte inteira para descansar. Por dentro as maquinações ocupam tempos e espaços. Até em repouso tento estar atenta. Pudesse, trocava o dia pela noite. Não sou de pegar sol. Coruja, como diz, há anos, minha mãe. Acho a lua mais calma. Sol é intenso demais pra mim. Conflita com meu interior barulhento. Por isso gosto da noite, acho. E por isso, talvez, goste dos seres solares. Alguma coisa a ver com harmonia e equilíbrio. Notívagos, como eu, possuem algo melancólico, de se ruminar sozinho. Somos seres do dentro, do lúgubre. Possuímos cavernas desabitadas e esconderijos secretos. Nada do que se gabar! Seres solares possuem praças ao ar livre e um vento fresco de fim de tarde. Gosto do frescor que eles me trazem. Às vezes acho que estou sempre com cheiro de mofo e cigarros. E de bebida velha: dia seguinte de ressaca. É claro que as impressões são exacerbadas. Não sou tão soturna quanto posso parecer. Na verdade, tenho tentado ser um pouco mais solar, até. Um conflito consciente da razão com a emoção. Eterno revezamento entre dia e noite. Minhas idéias, à noite, funcionam melhor. Leio melhor, escrevo melhor, ensaio melhor. Minha criatividade está escondida em algum buraco negro afastado da luz. Mas não é só a cabeça que melhora com o passar das horas. Meu corpo, por mais que eu tente, é rebelde durante o dia. Só quando a noite cai é que ele aceita, de bom grado, as ordens que lhe dou. Porém exercitá-lo à noite libera substâncias que impedem minha cabeça de dormir. Resultado final: não me exercito e não durmo. Aliada à minha afinidade com a noite está minha completa caretice em acordar tarde. Quem me dera se os ponteiros do relógio se movessem sem me preocupar. Qual o quê! Quando o dia amanhece, a consciência pesa sobre o travesseiro. Posso até dormir pela manhã, mas adentrar a tarde é proibido. Veto interno, coisa minha. Isso independe da quantidade de horas dormidas. Verdade é que se tivesse o poder, queria cinco horas a mais de noite por dia: viver de noite, dormir de noite, e ver o sol, pra não perder o costume. Essa coisa de que sol é vida tem aquele famoso fundo de verdade. No sentido emocional, digo. O outro dispensa comentários. A luz artificial me cansa. Lâmpadas incandescentes são de extrema utilidade, mas deveriam ser utilizadas com um pouco mais de moderação. Nós humanos temos mania de tentar mimetizar as coisas. Uma coisa boba que eu pensei agora, mas vejam: quando queremos dormir de dia, fechamos as cortinas, tapamos os olhos... e à noite, para a vida, lâmpadas. Sem mais nem porquê isso me lembrou uma conversa que tive ontem. O interlocutor, do dobro da minha idade, dizia: “nosso erro (se referia aos casais homossexuais) é tentar copiar um modelo de relação homem-mulher, monogâmico”. A mimese nunca será tão perfeita quanto o modelo original. E, convenhamos, neste caso até o modelo -- perfeito a princípio, tem o prazo de validade curto. Somos condicionados, é disso que estou dizendo se ainda não me fiz entender. O condicionamento, imposto ou escolhido, gera uma série de condutas rígidas, difíceis de serem mudadas. Difíceis, não disse impossíveis. Mas há algo dentro de nós, penso, que permanece ligado ao modelo, mesmo que consigamos trocar as peças. Algo como uma culpa, ou um estranhamento. Uma bobagem o que eu estou dizendo, mas ando me reprogramando, e tenho tido certos problemas de aceitação. Problemas operacionais. Controlo a máquina de maneira satisfatória, mas ela traz consigo um ranço de passado. Como os velhos, que acham que os tempos idos são sempre melhores do que os que estão por vir. Disse e não me alonguei, mas estou tentando ser um pouco mais solar. Não que eu consiga viver mais o dia, mas estou tentando me distanciar um pouco da noite. Tenho dormido mais cedo -- o que já são horas inaceitáveis se formos pensar nos moldes vigentes. Ser noturna me deixa mais interessante, mas o sol me deixa mais alegre. Já reparou como as pessoas da noite sorriem menos? Eu sorrio bastante, mas é um sorriso ácido. Quase uma ironia. Talvez esta seja minha medida entre o claro e o escuro. Lusco-fusco. Não deixa de ser agradável. Um certo tipo de essência. Parando para refletir, agora, percebi que meus relacionamentos sempre duraram mais com os seres da noite. Mas definitivamente, sou mais feliz com os solares. Eles me inundam de maneira absurda -- e depois se vão, levando-se por completo e deixando, em mim, um certo brilho no olhar. Meus olhos talvez estejam brilhando ultimamente; tenho visto o sol. Mas coloquei-o cuidadosamente por entre as nuvens, sem ele saber. Travessuras de uma menina má, talvez. Mas acho que mais uma brincadeira inocente, de quem quer aproveitar o dia sem ser incomodado. De lá, de trás do seu esconderijo, o sol se mostra pra mim em momentos oportunos. Me faz abrir um sorriso esperançoso apenas para se esconder em seguida. Fui tentar ser esperta, mas a verdade é que me enganei. O sol anda brincando comigo. E eu, divertida, ando brincando com fogo. Só espero não me queimar... A fogueira, na escuridão da noite, é o sexo desse meu tempo.
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2 comentários:
achei confuso. mas interessante.
gosto das travessuras de uma menina má, é bom de ler.
sem mais comentarios!
Muito bom!
Se tem uma coisa que acho muito doida aqui na Europa é que ninguém tem uma luz forte em casa, todo mundo tem luzes fracas nos quartos e salas e casas.
Eu odeio luz, mas não chego a ser um ser da noite. Acho que tenho fotofobia, daí uso óculos escúros -- também porque não gosto de colírios. Dormir a manhã toda é demais, ainda bem que vc não entra na tarde, senão seria vagabundar demais. Quando eu acordo depois das 9 já me dá uma ânsia de ter perdido o dia. Acordo sempre com vontade de viver.
Se tem uma coisa que acho muito paia aqui na Europa, particularmente agora, no verão... é que o sol insiste em permanecer iluminando o planeta até as 22 horas e depois já quer voltar às 5 da manhã. Vê se pode? É rebelde, o tal do sol. Uma bosta! Chego em casa e fecho as cortinas, ligo a luz, bem fraca. Assim me sinto melhor.
Seus textos estão muito legais, mas estão começando a ficar muito grandes e intelectualóides, com citações escondidas e críticas sociais. Ouvi dizer que isso não leva ninguém pra frente. Mas, enfim, quem quer ir pra frente?
Beijos!
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