quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Mentiras inverdades

Já disse que às vezes defendo pontos de vista que não são os meus? Certamente já o disse. Há alguns dias, em uma discussão sobre novos nomes da música, fui herege. Difamei cantores que eu amo, desdenhei de vozes impecáveis e lamentei a falta de genialidade da nova geração. Tudo balela. É claro que, no meio do bolo, disse algumas coisas que de fato penso. Mas em geral, abusei das asneiras. Estou contando o meu acesso desenfreado de inverdades porque a experiência foi muito interessante. Entre os interlocutores, alguns dos meus melhores amigos. Não consegui enganá-los por completo: eles já conhecem minhas artimanhas. Mas quando tenho um surto desses, eu mesma acredito piamente no que estou dizendo; sou até capaz de comprar briga. A turma que estava presente teve reações diversas: alguns ficaram chocados com o meu desplante. Outros se enfureceram. E os que me conheciam mais, ficaram num misto de indignação e incredulidade. Questionavam meus argumentos, se emputeciam, mas volta e meia soltavam o comentário ‘gente, não é verdade! ela sempre faz isso!’. É, eu sempre faço. Mas não é por querer, eu juro. É uma coisa esquizofrênica que não sei de onde vem; talvez uma vontade de testar minha capacidade de convencimento. Mas não é virtuose! Está longe de o ser. Às vezes, depois desses arroubos, chego em casa e fico pensando nas coisas que disse. De fato, eu poderia pensar daquela forma e, definitivamente, há outras pessoas que pensam assim. Talvez seja esse o meu vício pela discussão: refletir sobre as várias óticas, pensar em estratégias de convencimento, me deixar dobrar por argumentos alheios. Adoro essa brincadeira. Tenho pânico de quem discute para ganhar. O bom da discussão é o jogo. O cabo de guerra. Depois que um lado cai, é fim. Frescobol. O que me diverte é a bolinha no ar, oscilando de mão em mão. Eu gosto é da raquetada! Principalmente quando ela faz o outro jogador cair, só pra manter a bola no ar. Boas discussões têm tudo a ver com relacionamentos. O velho jogo de ceder e pressionar. O que nada tem a ver com discussões de relacionamento – que é um jogo bem menos interessante e saudável, de ônus e cobranças. Enfim, foi só um parêntesis. Às vezes me pergunto de onde surgiu esse meu hábito. Não é um gosto pela mentira. Tirando esses arroubos, minto muito pouco no meu dia-a-dia. Só o necessário. E nem acho que minto, quando estou em crise. Naquele momento, tudo o que digo é verdade. Não dentro de mim. Mas assim que eu pronuncio aquelas palavras impensadas, todo o meu corpo passa a acreditar nelas em um instante. Elas passam a ser genuínas para mim. Talvez se eu mentisse mais, diminuísse esses episódios. Mas não quero mentir mais. E não quero diminuí-los. Na verdade, adoro quando eles acontecem. Sou a que mais me divirto nessas discussões. Mas, tirando o lado divertido, assumo: não tenho controle sobre esses momentos. Solto a língua, e paro para me ouvir. Nestes instantes, nada é premeditado. Tudo acontece em frações de segundos. Gostaria de ter esses arroubos não só com mentiras, mas também com verdades. Mas parece que o bom senso cria uma represa para as sinceridades. Ia ser maravilhoso ter arroubos de verdade em certas situações. Na minha vida amorosa, por exemplo, ia ser um sucesso. Ia me poupar dias de angústia e expectativa. Tem gente que tem isso. Eu não, engraçado. Para tanta coisa extrovertida, para homens me escondo. Eles me intimidam. Sempre tenho medo de parecer ridícula, presunçosa, melosa, sei lá, piegas! Das outras áreas não posso reclamar. Tenho me dado muito bem com a linguagem. Sei resolver meus problemas com o português. Os brasileiros é que me incomodam. Ah, esses brasileiros. Complicados, confusos e carentes. Calientes! Que me deixam, de uma hora para outra, sem saber onde achar as palavras...

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