segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Carta a um antigo desafeto

Oi, querida, como é que você está? Pergunto mais por educação, porque tenho notícias suas sempre – tanto dos seus amigos, como dos seus outros desafetos. Gostaria de poder falar tudo isso pessoalmente, mas tenho a impressão de que você não teria paciência de me ouvir, por isso escrevo essa carta. Hoje fiquei sabendo que, mais uma vez, você está magoada comigo. Motivo tolo: te deletei do meu universo virtual. Sinceramente, não entendo, mas mesmo assim vou me explicar. Primeiro, gostaria que você entendesse que não fiz isso de sacanagem. É um velho hábito. De tempos em tempos (tempos curtos), dou uma olhada nos meus “amigos virtuais”, e excluo aqueles com os quais não mantenho contato. A razão é simples: não tenho porque acumulá-los. Aliás, acho mesmo de péssimo gosto manter mais do que um punhado deles. Não preciso mostrar a ninguém que conheço muitas pessoas. E os amigos, amigos de verdade, cabem nos poucos dedos das mãos. Por isso, virtualmente, mantenho apenas aquelas pessoas com as quais não gostaria de perder o contato; nos mandamos notícias mutuamente. São pessoas queridas, que foram afastadas de mim pelas circunstâncias da vida. Se você duvidar, pode entrar lá e conferir: vários dos nossos conhecidos em comum não constam naquela lista. Nada pessoal, apenas uma atitude coerente com o meu modo de pensar. Quanto a você, sejamos sinceras: acho que nunca trocamos uma mensagem naquele espaço. E olha que fomos “amigas” por anos. Por isso – e apenas por isso – achei melhor deletá-la. Prova da nossa indiferença é que fiz isso há meses e, pelo jeito, só agora você foi perceber. Sua mágoa – se é sincera – na verdade me espanta muito. Achei que se você fosse sentir alguma coisa, fosse algo parecido com alívio. Porque, a bem da verdade, a convivência comigo, pra você, sempre pareceu um fardo. Resolvi descomplicar! Já que você não faz parte da minha vida real, também não tem porquê fazer da virtual. Lado bom da história: você não precisa nem perder seu tempo falando mal de mim. Pode simplesmente fingir que eu não existo. Acho que isso será bom pra nossa eventual convivência. É saudável assumirmos nossos reais lugares: somos pessoas completamente diferentes, que possuem vários amigos em comum. Não somos amigas. Há muito tempo não o somos.

Sobre isso, aliás, também tenho algumas coisas a dizer. O tempo passa, minha querida, e passa rápido. Já faz tempo que deixamos de ser aquelas garotinhas bobas, que brigavam por motivos medíocres. Se você quer saber, às vezes eu tento, mas nunca consigo lembrar porque começamos a nos desentender. O que eu lembro é que éramos bem amigas. Lembra daquela vez que nos encontramos na peça do Rodrigo Santoro? Histéricas pra conseguir falar com ele? Eu lembro. Com saudades. E das viagens que fazíamos praquele interior? Você ainda vai lá? E aquela amiga estranha que tivemos? Até hoje não entendo qual era a dela – e me dá arrepios, só de pensar! Lembro das caipivodkas – nossa, como a gente bebia vodka naquela época! – lembro dos seus irmãos “pequenos” e do seu pai indo nos buscar nas festas. E não consigo me esquecer daquele apartamento, daquela varanda, e das longas histórias que aconteceram ali dentro. Sim, é disso que eu me lembro. De bons momentos da minha adolescência. Bons momentos que passamos juntas. Depois, um abismo. Não sei como ele se formou, não me interessa. Mas ele existe. Está aí e, pelo jeito, não queremos passar por ele. O deixamos quieto, cada dia mais profundo. Se quer saber, também tenho mágoa de você. Mágoa não, frustração. É que depois dos desentendimentos, depois da calmaria, por várias vezes tentei me reaproximar. E todas as vezes desistia quando sabia que, mais uma vez, você estava tentando jogar as pessoas contra mim, falando mal, criando essas suas estranhas fantasias. É uma pena. Poderia ter sido diferente. Mas não foi. Acho melhor, então, deixarmos de ser hipócritas, e assumirmos nossa real distância. Posso estar parecendo extremista, mas não é a minha intenção. Aliás, gostaria que você soubesse que não tenho nada – absolutamente nada – contra você. Se tivesse, provavelmente não estaria perdendo meu tempo escrevendo essa carta. Se eu te achasse uma escrota – como parece que você acha que eu acho – eu diria: “tá magoada comigo? foda-se!”. E ia me ocupar com coisas mais importantes. Mas, realmente, achei estranha a sua mágoa. E nunca foi minha intenção. Apenas quis colocar os pingos nos “is”. Sabe o que é? Depois que me mudei pra cá, que me distanciei, comecei a perceber melhor o valor de cada coisa na minha vida. E descobri que picuinhas de turma não tem lugar nela. Não quero confusão, não sou de confusão. Mas tenho que ser verdadeira comigo mesma. Portanto, se tiver que causar mal-estar por discordar de certas regras de conduta, vou ter que fazê-lo. Não tenho porque te manter no meu universo virtual só porque vai ser um choque eu te deletar. Desculpa, mas chega de hipocrisia. Na verdade, eu acho que a gente devia se re-conhecer. Porque eu, sinceramente, não conheço essa aí adulta, mãe de família e agora fumante. A que eu conheço é uma menininha mimada, capaz de mover o mundo quando é contrariada. Metade das coisas que você pensa sobre mim, também deixou de ser verdade ao longo do tempo. As pessoas mudam. É como eu disse: o tempo passa, e passa rápido. E esta é a última vez que eu gasto meu tempo tentando harmonizar essa história. Já me fiz bem clara agora. A você, cabe uma escolha. Pode optar por me manter apenas como uma conhecida, uma pessoa da qual você não gosta, mas que é obrigada a encontrar de vez em quando. Ou então, pode experimentar. Tentar me conhecer de novo, sem pré-conceitos. Sem idéias já concebidas. Por mim, proponho deixar o passado em seu lugar. Nossas imaturidades eram condizentes com a nossa idade. Mas nós crescemos, mudamos. Eu não sei quem você é. Quanto a mim, muito prazer! Meu nome é Flávia Prosdocimi...

Um comentário:

Anônimo disse...
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