segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Confissões de uma inconstante

Estou com medo. Um medo estranho e sensacional. Aquele medo de quem sabe que está se apaixonando. Aos poucos, sem querer, mas se deixando levar. Durante muito tempo lutei contra esse sentimento. Achei que não valia a pena, que era reflexo da carência, que nunca ia dar certo. Mas a vida tem suas razões. Aos poucos, foi me arrastando por esse oceano profundo sem que eu percebesse: fui me refrescando feliz, até que, agora, comecei a me afogar. Afogar-se, nesse caso, não é tão ruim assim. Tem sempre a possibilidade iminente de se sofrer. Coisa desnecessária e essencial. Estou me apaixonando pelo jeito, pelo sorriso, pela gentileza. Sempre me afastei dos homens bons. Nunca achei que pudesse ser boa para eles. Mas pela primeira vez sinto que, de certa forma, sou também uma mulher boazinha. Sempre sufoquei esse meu lado. Tenho vergonha do meu romantismo e da minha doçura. É sempre mais fácil mostrar a casca e esconder o recheio. Mas o recheio é doce, podem apostar. E, a cada dia, tem se tornado maior e mais cremoso. Tenho vontade de botá-lo pra fora, mas nunca fui boa nessas coisas de exibição. Escondo, faceira, essa faceta pra mim. Mostro-me aos poucos, sem pretensão. Quem sabe o quanto pode ser ruim e ainda assim acredita, merece ter o que há de melhor. Posso ser o que há de melhor, se eu quiser. Já o fui, um dia. Mas tenho me desencontrado das almas merecedoras, e tenho merecido poucas almas semelhantes. Mas, paulatinamente, tenho sentido a necessidade de me abrir. Para ele. Só para ele. Ainda penso nos contras, nas dificuldades, mas minha razão se engana. A emoção se sobrepõe, e me mostra facetas que eu, sem querer, fecho os olhos para não ver. A coisa já está se tornando física. Quase uma necessidade. Ainda não é um vício. Ainda não. Mas adoraria se, aos poucos, se tornasse. Há vícios que são benéficos. Saladas para a alma. Estou vendo um novo horizonte, do qual me escondi durante meses. Não gosto de me mostrar. Tenho uma dor guardada aqui, e um medo desse sofrimento inevitável. Mas até quando não vale a pena, prefiro sofrer a deixar de viver. Mas dessa vez vale. Todo o sofrimento que vier, tenho certeza, terá sido recompensado por momentos de extrema beleza. E não é só uma coisa que parte dele. Parte de mim também. Eu soterro, escondo, mas transborda. Não estou conseguindo mais evitar. É novo, é simples, e é grande. Bem maior do que eu poderia supor. Ainda não sei como lidar com tudo isso. Tranquei-me a sete chaves, e agora não consigo mais encontrá-las. Mas mesmo com as portas fechadas, me sinto aberta. Transbordante. A proximidade me inquieta. Me faz querer agarrar. Tenho a necessidade da pele, do abraço. Sempre fui assim. Mas nesse momento, tenho dificuldades de dormir. Me faltou a coragem de esticar o braço, de tocar o corpo. Aquela forma ali tão perto, e minha mente tão longe. Já não sei o que fazer. Como já disse, não sei como me mostrar. Nunca o soube. Penso em situações simplórias: qualquer coisa resolveria se me sobrasse a coragem. Mas sou covarde. Não consigo propor nem um olho no olho. Seria maravilhoso. Sinto falta dessa sinceridade. Sei que há sinceridade. Mas quero a pele, o conforto, a segurança. Não tenho conseguido lidar com a minha própria insegurança. Não sei mais agir como se tivesse certeza: estou sempre em dúvida. E a dúvida, nesse caso, é o meu grande fracasso. Alguns centímetros: foi o que me faltou hoje. Faltou uma iniciativa, uma credibilidade, uma certeza. Faltou-me tato. E sobrou-me intimidade. Nunca me senti tão confortável com ele: dentro e fora da realidade. Estamos em sintonia, eu sei. Mas acho que somos ambos bichos em fuga. Fugimos de nós, da nossa verdade. E ao mesmo tempo a buscamos desesperadamente. Essas linhas não serão lidas por ele, eu sei. Mas eu gostaria de colocar toda essa inquietação para fora. Queria que ele sentisse o meu calmo desespero. Minha necessidade da realidade. Queria ter os lábios mais próximos outra vez. E a certeza, equivocada, de que dará certo. Sinto falta de acreditar, mas com ele eu acredito. Sempre que estou perto, sempre que estou bem. Acredito na capacidade de ele me aceitar como eu sou: com meus defeitos e minhas variedades. E quero absorver o lirismo da sua simplicidade. Quero aquele calor latejante que até agora só senti pela proximidade. Quero aquele calor para mim. Em mim. De mim. Me sinto como uma criança perdida num shopping center: o paraíso ao alcance, e eu querendo a segurança de uma mãe. Quero conseguir entrar no paraíso. Não pretendo chorar antes de me machucar. Mas pretendo me lançar ao abismo com toda a minha verdade. Me lançar para ele e para mim, num balé atrapalhado, cheio de pés esquerdos. Quero dançar com ele até o sol se pôr e até o sol raiar. Quero sorrir a dois e brincar em paz. Quero ele para mim. Agora, nesse instante, nessa lágrima que cai. Quero a proximidade que não tenho e a distância que ainda hei de criar. Quero me esconder naqueles cabelos, e me perder na brisa daqueles olhos. Quero que ele se ache em mim. E que me perca. Quero me perder nessa melodia que a gente criou. E dançar a valsa da nossa insensatez. Quero o choro e a morte, a dor e o silêncio. Mas quero principalmente a vida, que pousa, sem rumo, nas asas da minha ilusão.

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