terça-feira, 12 de agosto de 2008

Reunião de Fragmentos

Por diversas vezes, parei de escrever um texto subitamente, como se a idéia me fosse arrancada, sem mais nem porquê. Esses fragmentos, discriminados, acabavam caindo na pasta dos textos não finalizados, e ruminavam sua inquietação por todo o sempre. Mas decidi fazer-lhes uma visita. E me questionei sobre a necessidade de conclusão daqueles pensamentos. O que propus, com a criação desse blog, foi libertar minha necessidade da escrita. Pretendo, portanto, não sufocar mais estes desabafos. Esses suspiros. Se alguém se interessar em completá-los, sinta-se à vontade. Talvez lhes falte um pai. Os fragmentos abaixo não pretendem dialogar entre si. Foram escritos em momentos diferentes, e vou postá-los do mais curto pro mais longo, independente da cronologia. São pedaços de mim que foram abortados. São mais alguns fragmentos de uma vida inventada...

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Hoje vi um atropelamento. Na janela de casa, um atropelamento. Na janela da alma, uma dor. No chão, o sangue denunciava um último sopro de vida. Vermelho. No rosto do motorista, o desespero. No do morto, a paz. Viver dói.
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Hoje não fui ao bailinho. Hoje deixei de ser criança um pouco. Fui ríspida com amigos e não pude fazer a melhor cena. Hoje pensei nele, quis falar com ele e não consegui. Hoje não tive vontade de chorar. Nem um pouquinho. Hoje fiquei sozinha. Muito sozinha. Mas não soube entender a solidão. Não quis falar com ela. Hoje só escrevo merda. Estou vazia por dentro.
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Estou arrepiada. Os pêlos do corpo eriçados. Uma estranha sensação de que algo está para acontecer. Talvez um sexto sentido. Não duvidem: as mulheres têm dessas coisas. Alguma sensibilidade não cognitiva. Alguma ligação inexplicável com o mundo. Não é a primeira vez que me sinto assim. Várias vezes já tive essas sensações. Às vezes, uma angústia desenfreada, um medo doentio. E depois, nada.
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Há pessoas que gostam de aniversário. Ela, particularmente, detesta receber telefonemas nestes dias. Até os amigos mais próximos, com quem possui uma relação estreita, adquirem tons formais no exercício de parabenizar e desejar os melhores votos. A grande verdade é que, quando o aniversariante é querido, palavras não alcançam a essência do bem que lhes desejamos. Mas era aniversário dele. E ela havia lhe prometido um e-mail. A distância, nesse caso, impedia o abraço. O sorriso. Teria que escrever. Ensaiou algumas linhas. Apagou. Reescreveu. Tudo lhe parecia premeditado e piegas – como são, de fato, os escritos de aniversário. Mas havia prometido, e pretendia cumprir...
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Nunca pensei que o fato de morar sozinho pudesse trazer tantas perturbações às pessoas. Não sei se vocês entendem o que eu quero dizer, mas mesmo as pessoas que não se sentem solitárias, que tem amigos, amores, amantes, parentes; quando vão morar sozinhas, começam a desenvolver tipos peculiares de paranóias. Tem o caso do jovem independente, que passou a ter medo de se engasgar com comprimidos. Tem também o daquele senhor que, do dia pra noite, achou que fosse sufocar enquanto dormia. E, a partir daí, passou a ter pânico de tomar banho: poderia se afogar com a água do chuveiro! Tem também o da velha senhora, que tinha medo de morrer e só ser encontrada dias depois – como se fosse fazer alguma diferença. Tem ainda o da garota, que temia desaparecer naquela cidade desconhecida, e seu sumiço só ser notado quando ela mesma voltasse para dar a notícia de que fora encontrada. Coisa de paranóicos. É claro que, tirando o afogamento no chuveiro, todas aquelas fatalidades poderiam, de fato, acontecer. Mas eram tão improváveis que a fobia se tornava (...)
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Ando um pouco preocupada com a solidão das pessoas, ultimamente. Não, podem ficar tranqüilos: não vou começar a discorrer sobre a solidão do homem moderno segundo Sartre e Beckett. Pra mim esse assunto está mais do que encerrado – embora muito do que eu vou escrever agora tenha, de alguma forma, relação com os estudos que fiz pra escrever aquele artigo. Mas se quisesse continuar na teoria, teria aceitado o mestrado. Agora quero refletir sobre a prática. Falo de fatos que tenho vivido, presenciado, ou que aconteceram com pessoas extremamente próximas. Enfim, a questão é que ando um pouco preocupada com a solidão das pessoas ultimamente. E quando digo solidão, estou me referindo a esse sentimento ruim mesmo. Tenho encontrado pessoas que não estão apenas solteiras: estão sozinhas, solitárias. Estão com dificuldades de lidar com a própria companhia. Porque se tem uma coisa difícil em ficar sozinho, é agüentar a própria companhia 24 horas por dia. Tem pessoas que são ótimas para lidar com os outros, mas que não conseguem lidar
consigo mesmo. Não me excluo do bolo – também me sinto assim às vezes. Mas devo admitir que, ultimamente, tenho me achado uma companhia cada vez mais interessante. Adoro minha solteirice e tenho convivido muito bem com minha solidão. Minha solidão é calma; de uma tranqüilidade irritante, mas cheia de descobertas inesperadas. Aceitar nossos piores pensamentos às vezes é bem complexo, mas conviver com eles e trabalhá-los nos dá uma noção de humanidade. De finitude. E de valores: os que nos são caros, e os que nos são impostos por qualquer tipo de hierarquia – social ou emocional.
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Depois de meses, a menina acorda com um telefonema. O que ela esperava. Com o canto esquerdo dos lábios, um sorriso. Ela disfarça. Tenta manter um tom agradável de surpresa. Do outro lado da linha, a ansiedade de quem tarda a tomar uma decisão inevitável. Segundos de silêncio. A garota se senta na cama. Descabelada. Nua. Em sua cabeça, um turbilhão. A voz masculina do outro lado tem algo de terno e duro. Algo que lhe interessa. Com as pernas cruzadas, ela observa o quarto – seu universo. Tudo disposto da pior maneira possível. Um mergulho de meses. Confusa ainda, ela decide desligar. Banho. Água escorrendo pelo corpo, acalmando a pele do susto involuntário. Uma reação de dentro pra fora. Ela respira fundo. Se observa. Tinha envelhecido um pouco nesses meses. O cabelo mal cortado. Alguns quilos a menos. Sem pressa, ocupou-se com os hidratantes. Sentiu prazer em se cuidar. Não devia fazer isso por ele, e não o estava fazendo. Aquele telefonema apenas a trouxera de volta à superfície. Arrumou o universo – cada astro em seu lugar. Tentou organizar também as idéias, mais confusas. Pediu um milk-shake. Ela estava podendo engordar. Enquanto fazia tudo isso, pensava na conversa ao telefone. Pensava na nova possibilidade de vida, no novo sopro de ar. Sentiu-se rejuvenescida. Sentiu-se imortal. Um homem, do outro lado da lanchonete, a observava. Incomodada, mostrou-se menos solícita do que gostaria. Um ódio começou a percorrer seu corpo. Por dentro. Parecia caminhar pela corrente sanguínea. Irrigar os músculos. Uma sensação incontrolável, ela não podia intervir. Desesperada, começou a compreender sua crise: tudo estava exacerbado, depois de meses de quietude. Teve vontade de agredir aquele homem. Fisicamente. Em sua cabeça, imaginava milhares de formas para feri-lo. Ela queria vê-lo sofrer. Não entendeu muito bem seus sentimentos. O rosto dele lhe era particularmente familiar, mas completamente desconhecido.
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A partir de agora, postarei, sempre que achar necessário, esses fragmentos perdidos. O foco não é o sentido e sim a busca. Vou postá-los sob o título Incompletos – seguido do subtítulo que lhes darei. Espero que não seja um estorvo a leitura de pensamentos abortados. E espero, ambiciosamente, que os pensamentos continuem aí, do outro lado da tela, como um diálogo entre mim e vocês, interrompido bruscamente por uma pane elétrica nos meus circuitos cerebrais. Bons pesadelos!

Um comentário:

Marcela Sena disse...

achei interessante! já disse que adoro isso : Bons pesadelos. hahaha. gostei!
beijos em vc baunilha!