Uma folha de papel em branco perdida no meio da rua vazia. Voando, por entre os ruídos da brisa e o calor da fumaça. A folha branca, que escurece ao longo da vida, tornando-se negra nas pontas, quebradiça. Papéis... Cartas esquecidas no fundo das gavetas, ou queimadas em acessos de raiva. Pedidos escritos em um dia 31 e jogados ao mar. Receitas, recados. Números aleatórios, telefones, informações. Pequenos pedaços de informações que se perdem ao longo do tempo. Papéis esquecidos que não fazem sentido depois de algum tempo. Tenho revisitado papéis. Papéis intangíveis e imaginários, que constroem grão a grão esse meu castelo de areia. Papéis que formam janelas e portas, e brisas e suspiros. Principalmente suspiros... Tenho me encontrado nessa multidão de letras. Tenho achado um pouco de mim. Um eu que já não existe, um eu que se transformou, um eu que se repete. Papéis são pequenas lágrimas coloridas com canetas bic.
**********
Correu pela rua assustado, procurando o que havia perdido. Empurrou pessoas, falou palavrões, e nem assim encontrou. Demorou a aceitar, mas depois de algum tempo, acabou sentando-se na calçada para avaliar o tamanho do prejuízo. Nenhum – pensou. Tinha se exaltado demais. Não era como perder a aliança... Não havia prejuízos; apenas uma fugidia sensação de tolice. Bobagem! Sorriu internamente, como ri quem já não tem o que explicar. Estava feliz. Passeou por entre os carros, tentando esquecer pensamentos que cismavam em lhe ocorrer. Queria o vazio. Já havia perdido, não havia como voltar. Telefonou para um amigo: não tinha nada a dizer. E nessa imbecilidade, resolveu se implicar. Nada como um belo dia de sol pra enlouquecer as cabeças confusas. Foi gastar a sola do sapato, e o resto das moedas que lhe pesavam o bolso. Com um sorvete nas mãos, lembrou da antiga bicicleta, reformada pelo pai, e presenteada ao sobrinho. A gente vai e as coisas sobram. O pai já havia morrido. De enfarte, de derrame, de tristeza. Estava vivo ainda, mas era melhor que não estivesse. As lembranças do pai sempre lhe povoavam a cabeça. A noite começou a cair. Faróis na vinda, freios na ida. A maresia como uma lama encobrindo o universo. Fumaça. Com as mãos meladas, pensou em correr. Mas os sapatos lhe doíam os pés. Pretos. Os pés suados do calor. Nada como um dia quente. As luzes do trânsito invadindo os pensamentos que ele tentava tirar da cabeça. A cabeça doendo pelo calor. As pernas suadas, os braços. Uma saliva espessa ocupando a boca. Estava salgado, o verão era assim. Com a buzina nas orelhas, pensou se conseguiria reconquistar o que perdera. Telefones não são fáceis de encontrar. Cogitou a possibilidade de reencontrar aquela moça. De óculos, interessante. Queria aquela moça que lhe abordara tão gentilmente, com um sorriso no rosto e aquele papel na mão. Onde estaria o papel? Pensou no porquê de não ter aceitado o convite, no motivo de não ter ido ao encontro da moça. Não sabia se ela era comprometida. Com o moço de cabelos loiros. Mas pensava na moça, e no telefone perdido. Talvez nunca mais voltasse a se achar, como se achara naquele par de óculos. Perdido por entre as mesas do bar, observando só ele. Com um sorriso no rosto, e aquele papel na mão, sonhado. Papéis são pequenas esperanças, manchadas pelo passar do tempo.
2 comentários:
amando seus textos!
estão ótimos, essencialmente claros!
salve, salve esta mente!
beijao minha bunitona!
"Papéis são pequenas lágrimas coloridas com canetas bic."
lindo isso! quase chorei eu... a imagem é belíssima.
Postar um comentário