domingo, 19 de outubro de 2008

Lobo de Deus

O Lobo Mau estava escondido debaixo da cama. No escuro. Chapeuzinho não sabia, coitada, mas sentia uma energia estranha no quarto. Embaixo de suas grossas colchas de veludo, Chapeuzinho suava de calor e de horror. Achava graça do filme apavorante, ao mesmo tempo em seus pelos se erguiam. Estava assustada, sem motivo. Sempre gostara dos filmes trash, de qualidade duvidosa. Muita groselha escorrendo como sangue, e maquiagens falsas que ela mesma saberia fazer. Já tinha feito aulas de maquiagem, ela. Ou vocês pensam que aquela roupinha vermelha é tendência? Nada disso. O modelito de capuz era apenas uma peça do figurino. Mas lhe rendera um apelido que levaria para toda a vida. Não ligava muito... Encarava como um nome artístico. Até que era bonitinho: Chapeuzinho Vermelho. Embora ela – em sua brancura de cera – detestasse vermelho. Ficava meio endiabrada. Assemelhava-se um pouco ao demônio. Mas ela era mesmo da pá virada. Depois da historinha infantil, já tinha se aventurado em filmes pornôs e histórias macabras. Gostava de denegrir a imagem de sua própria personagem. Sua menina dos olhos. Sob o tal codinome, atuou em várias peças publicitárias e produções de baixa renda. Dava pra pagar o aluguel. Mas Chapeuzinho já estava ficando velha. Aquele corpinho de criança magra só encantava ao Lobo Mau. Ah, o Lobo Mau. Eterno possessivo e apaixonado. Chamava-se Jeremias, na verdade. E não tinha conseguido sucesso na carreira embaixo daquela roupa toda. Poderia ter feito o personagem pelado: era coberto de pêlos. Teria tido mais sucesso, se assim tivesse sido. Mas o produtor não deixara. E Chapeuzinho odiava pêlos. Até que não era um mau sujeito, o Lobo Mau. Mas recusava qualquer possibilidade de depilação, o que enervara Chapeuzinho, e a fizera romper o conturbado relacionamento em caráter definitivo. Mas não se conformara, o Lobo Jeremias. Mandava flores, telefonava, enviava presentinhos duvidosos e cartas de mau gosto. Chapeuzinho nem ligava: depois dos filmes pornôs, vários admiradores lhe enviavam pornografias e declarações. Metade do que Jeremias escrevera estava junto com as cartas dos fãs, abandonadas num quarto escuro, sem previsão de leitura ou incêndio. Tudo jogado às traças. De tempos em tempo, o Lobo visitava a pequena Chapeuzinho. Escondia-se embaixo da cama, e ficava sentido o cheiro da amada. Cada movimento era uma surpresa, um delírio. Passava horas imóvel, apenas apreciando aquela presença. Desta vez, tinha-se decidido: sairia do anonimato, e conquistaria de vez o coração de Chapeuzinho. Para isso, até tinha sido flexível: aparara bastante os pêlos do corpo com uma maquininha de cabelo. Até a barba tinha feito. Um engano... Chapeuzinho adorava homens barbados! Na gritaria do filme b, Jeremias pensava na vida, e planejava cada detalhe de seu futuro amor perfeito. Coitado. Lá pelas tantas, um barulho de campainha. Era o Caçador, com uma barba espessa, um champanhe gelado e uns apetrechos sexuais. Em instantes, a gritaria da tela passara a parecer sussurro perto dos uivos da garota e de seu herói. A movimentação frenética do colchão deixara o Lobo desconfortável, quase espremido entre a cama e o chão. Com lágrimas nos olhos, Jeremias invejava a sorte do caçador – infinitamente mais bonito e viril que ele. Era mesmo uma vadia, a tal da Chapeuzinho. Com suas cantigas infantilóides e sua bondade fingida. Uma puta. Silenciosamente, o Lobo começa a se mover na escuridão do quarto, em busca da espingarda do caçador. Espingarda de dois tiros. Teria que escolher uma vida para salvar. Uma só, naquele triângulo de indiferenças e paixões. Mataria a todos, se tivesse oportunidade. Mas o caçador lhe negara a possibilidade do suicídio. Com o cano da espingarda, acende de repente a luz do quarto no momento de maior prazer do casal. Sem hesitar, atira cruelmente nos amantes: uma bala em cada cabeça. Eles caem mortos, com uma expressão assustadora de prazer e dor. Com cuidado, o Lobo afasta o Caçador, e beija, carinhosamente, o sexo de sua amada. Com as mãos, suja-se do sangue do casal, e rouba o figurino inesquecível, da fatídica peça infantil. Como um louco, sai pela rua com o rosto manchado de sangue e envolto na capa de cetim vermelho. Tem a alegria de uma criança grande, e a tristeza de um pequeno adulto. Pelas ruas, as pessoas se apavoram e se compadecem. Não há sentido na realidade nem na fantasia. É apenas um personagem de uma história sem futuro. Perdido no enredo criado por outrem. Um personagem inocente, segurando o peso das linhas tortas escritas por Deus.

2 comentários:

Marcela Sena disse...

Disparadamente sua melhor historia!
to muito feliz com seus textos!
saudade de voce, baunilha!
beijinhos

. disse...

admito que nao li...
amanhã leio...
só vim falar da peça...
vamos fazer...
aquilo é uma música de um cd que to protelando gravar!!!
rsrs...
xêro =]
Ayade