sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Leitora desconhecida

Tenho uma leitora desconhecida. Na primeira vez que ela ousou comentar um texto, entrei em seu perfil e tentei traçar algum paralelo; procurei construir a ponte que, de alguma forma, nos unia. Foi em vão. Ao que me parece, não temos nenhum amigo em comum. Não acho que ela tenha descoberto o blog por indicação de alguém. Não sei como ela chegou até aqui. Mas ouso dizer que, de uns tempos pra cá, ela tem sido a minha leitora mais importante. Peço desculpas aos amigos assíduos, leitores por caridade e por identificação ao conteúdo. Adoro a presença de vocês. Mas essa leitora inusitada trouxe-me uma brisa fresca; um novo sopro de inspiração. Sua presença nesse universo intangível é prova de que as minhas letras não reverberam apenas no que é conhecido: ecoam pelas almas humanas perdidas neste mundinho virtual. Pelo que descobri, a leitora desconhecida também é atriz; brasileira, mas mora fora do país. Acho que o meu canto é bem ouvido pelos exilados. Acho que me identifico com quem sente saudades. Mas a estrada é longa, e ficaremos parados se, a todo o momento, olharmos pra trás. Pode ser que essa minha querida leitora nem seja a única desconhecida: essa maquininha que não pára de contar os acessos mostrou-me que há mais números do que os amigos; há mais rotatividade do que textos. Mas ela, apesar desta hipótese, é a única que dá as caras; que opina, que critica, que se mostra. E é também, conseqüentemente, a única que é ouvida. Foi a partir de seus comentários que comecei a me questionar sobre a particularidade do blog: será que este espaço é pessoal demais? Por outro lado, foi também a partir de seus pensamentos que percebi que toda singularidade encontra uma mão amiga em peito alheio. Não importa a partir de quê o texto foi criado. O que importa é que o texto diz coisas que às vezes nem eu mesma sei ouvir. Como escritora, sou também a minha primeira leitora. Mas sou uma leitora um pouco tapada, que às vezes perde a multiplicidade de possíveis interpretações. Os textos são o meu próprio umbigo; um rio calmo para Narciso. E é apenas através do olhar dos outros, que conseguimos construir a nossa própria imagem. E isso não é de minha autoria. Sartre mesmo já dizia. É por isso que adoro quando as pessoas comentam os textos. Textos sem comentários me parecem menores; insensíveis. Escrevo pra ser ouvida. E escrevo pra tirar daqui de dentro, coisas que não conseguem sair de outra forma. E é maravilhoso descobrir que não estou sozinha na minha solidão. Que há outras almas dividindo inquietações, que há outros abraços amigos que sentem saudades. Escrevo pra mostrar que eu sou boa, e pra provar que eu sou muito ruim. E escrevo pra ser criticada. Este texto, por exemplo, escrevi pra ela. Pra minha ilustre leitora desconhecida, que volta pelo meu bom humor, e pela minha “capacidade” de terminar na hora certa. Escrevi pra que ela saiba que eu também a leio – e que suas opiniões são importantes pra mim. E escrevi pra agradecer àqueles que gastam um tempo aqui, lendo as bobagens que eu escrevo, e fazendo delas uma parte de si. Obrigada! Aos conhecidos e aos desconhecidos. Escrevo porque não consigo cessar; mas é bom saber quem há quem se aproveite um pouco de mim. Bem-vindos. Peguem o que melhor lhes aprouver. E, se puderem, deixem um pouquinho de si! Eu adoro a riqueza da troca. E, sinceramente, ando precisando revirar o lixo alheio. Acho que estou começando a me tornar repetitiva...

2 comentários:

Prós disse...

Ah, o google tá aí pra isso. A galera acaba achando a gente em pesquisas aleatórias no google. Basta falar alguma coisa que seja ligeiramente diferente de sexo ou jesus que a gente acaba aparecendo lá.

Eu tbm gosto de ter um feedback pq a gente realmente termina de escrever os textos e está muito dentro deles. Eu quase nunca publico um que acabei de escrever. Dou-lhe um "efeito-gaveta" por uns dias. Depois pego, releio... adiciono ou retiro, vejo se vale mesmo a pena publicar e só aí clico no "post", sempre com uma certa angústia. Queria que alguém os lesse antes de postá-los. Tem uns que são reprimidos mesmo e que nunca foram nem serão publicados.

Vez por outra, algum desconhecido aparece comentando meus textos e fica presente por um tempo, depois some. Já vi também outros blogues que têm um nome parecido com o meu e que são algum tipo de cópias deformadas e personalizadas (por outros) das coisas que costumo escrever. Fico feliz por inspirar os outros!
Bjs

Marcela Sena disse...

primeiro: nao comento mais no seu blog.(chilique/ciume) nossas conversas interminavéis no cafeina sobre "blogs" se tornaram pueris devido a este texto tão bem escrito.

segundo: eu sabia que você entendia quando reclamava que não tinha comentários nos meus textos, e você se fazendo de despercebida. vaca desmamada!

terceiro: um tapa e um beijo.