quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Homem Invisível

Era mau, o homem. Nunca aprendera a ser bom. Nascido sem pai nem mãe, era filho de um mundo cruel, saturado de desonestidades e perversões. Aprendera com a vida o preço de não morrer, e vendia aos inimigos uma máscara de quem não tem nada a perder. Refeições formais, nunca tinha feito. Banho de água quente, só quando era recolhido aos abrigos da cidade, de onde fugia assim que lhe fosse possível. Conseguira atravessar a adolescência sem nenhum percalço: orgulhava-se de nunca ter sido mandado aos temíveis reformatórios. Filho de chocadeira, tinha crescido na rua, entre jornais velhos, bêbados e prostitutas. Em várias ocasiões, apanhara de desconhecidos sem motivo algum; apenas por estar ali. Mas crescera sem mágoa dos pais: não tinha parentes, era filho daquele asfalto sujo, fedendo a mijo e creolina. Conhecera o sexo ainda cedo. Nas ruas, para adquirir respeito, é necessário usar a violência. Por isso, sua primeira transa havia sido forçada. Um garoto ainda sem barba, procurando o lugar onde enfiar o pau – enquanto a vadia, drogada, gritava; mais de loucura do que de rejeição. Nunca gostara de sexo. Naquela imundície que era seu mundo, o encontro entre dois corpos trazia à tona um cheiro quase insuportável. Mas não sonhava com a limpeza e o conforto: só se pode sonhar com aquilo que se conhece. E ele nunca conhecera outra vida que não aquela miséria. Para ele, carros e ternos faziam parte de um universo paralelo ao seu – um universo que ele não entendia, e pelo qual não se interessava. Toda a sua maldade era direcionada às pessoas como ele. Em sua ignorância e mediocridade, cobiçava cobertores furados e canecas de alumínio. Roubava apenas para comer. E mendigava de maneira amigável, como se daquele mundo perfumado só lhe interessasse alguns míseros trocados. Tinha aversão a pessoas: vivia sozinho. Quando o corpo lhe obrigava a procurar companhia, munia-se de seu pequeno canivete para evitar contratempos. Mas na maioria das vezes, encontrava mulheres sedentas e fartas de carnes em qualquer viaduto mal iluminado, ou beira de estrada vazia. Já havia se deitado com homens. Já participara de surubas apenas para aplacar o frio da noite. Não era imoral, era apenas amoral. Nunca soubera distinguir o certo do errado. O limpo do sujo. O medo da tristeza. Para ele, a vida era apenas o agora, com a barriga calma, esperando a fome – ou o sono – chegar. A vida se resume a isso: nutrir o corpo, e esperar a morte. Tinha vergonha de defecar em público, mas há tempos não tinha o prazer de utilizar uma privada. Escolhia cantos escuros, e se irritava sobremaneira quando era surpreendido em sua intimidade. Não sabia o significado da palavra “amigo”, mas dividia sua cachaça, às vezes, com um velho mais necessitado. Não era de se embriagar. Cola pra passar a fome, e aguardente pra esquentar o corpo – apetrechos necessários e acessíveis àquela vida de sarjeta. Não sabia quando tinha se tornado sozinho. Não se lembrava de nenhuma sensação de carinho ou proteção. Nunca soubera a diferença entre a vida e a morte. Para ele, a vida era uma linha infinita que se estendia entre o estômago, os sonhos e a temperatura. Uma linha traçada por alguma coisa que chamavam de Deus, e que ele não sabia o significado. Uma palheta de cores que ia de madrugada a madrugada. E que permeava aquela sua existência apagada, desgraçada, fedorenta. Menti. Não era mau, o homem. Ele não tinha classificação. Não possuía sentimentos. Ele era apenas mais um homem invisível, perdido nesse caos controlado que ousamos chamar de civilização.

2 comentários:

Marcela Sena disse...

apenas um ser humano!

Prós disse...

Gostei, tirando que vc lança no cara sua moral dizendo que ele é mau e tal. Não acho que ele seja mau, ele só não aprendeu o que "isso que ousamos chamar de civilização" diz que seja o bem ou não. Não existe bem e mal que não aqueles inventados pelo homem em algum tempo, em algum lugar ou sociedade. Nietszche teorizou sobre o assunto em "além do bem e do mal" ou "a genealogia da moral". Tudo é amoral fora do homem.
Por falar nisso, tem horas no texto que dá até inveja do camarada aí que não tem que trabalhar nem nada. Come quando tem fome e bebe quando tem sede, dorme quando tem sono. E nós com os despertadores, a hora certa do almoço e a necessidade de dormir alguma hora para não perder o trabalho no dia seguinte.
O cara poder ser mau (segundo vc ou a sociedade), mas pelo menos ele é livre. E isso me lembra uma música: "nós, gatos, já nascemos pooo-bres... porém, já nascemos liii-vres... senhor, senhora..."
Bjs!