- Dona Sônia, a senhora é atriz?
- Sou sim, Iolanda, por que?
- Nada não, dona Sônia, só queria saber.
(Tempo)
- Ô dona Sônia, se a senhora é atriz, por que que eu nunca vi a senhora na televisão?
- É que eu sou formada em teatro, Iolanda, ainda não fiz nada na televisão.
- Ah... e pode ser atriz sem fazer televisão?
- (se irritando) Claro que pode, não é, Iolanda. A Marília Pêra, por exemplo, trabalhou anos no teatro antes de ir pra televisão.
- Eu adoro a Marília Pêra. Ela tem um jeito engraçado, né?
(Silêncio. Tempo.)
- Ô dona Sônia, desculpa perguntar, mas a senhora trabalha no teatro também? É que eu passo aqui o dia todo, todo dia, e a senhora sempre na frente desse computador.
- É que agora eu tenho um site na Internet. E fico escrevendo textos pra ele.
- Mas depois que eu vou embora a senhora vai pro teatro?
- Vou não Iolanda. Eu não estou em cartaz.
- É mesmo? E quando que a senhora vai estar em cartaz? É que eu tenho uma sobrinha, a Luana, que é doidinha pra entrar na televisão. Quem sabe eu não levo ela pra assistir a peça da senhora, e um olheiro da globo não descob...
- Não sei quando vou estar em cartaz, Iolanda. Além do mais, essa coisa de olheiro é história pra boi dormir!
- Não é nada. Lá no meu bairro tem uma menina...
- Iolanda, você está me atrapalhando.
- Ai, desculpa, dona Sônia. O que é que a senhora está escrevendo aí?
- Até agora nada. Você não pára de falar na minha cabeça. Não to conseguindo escrever.
- Escreve sobre o doutor Marcelo.
- Escrever o que sobre o Marcelo, Iolanda?
- Sei lá, ele não é marido da senhora? Escreve como vocês se conheceram. Já sei, escreve sobre a viagem que ele está fazendo!
- E eu lá vou saber escrever sobre a viagem dele, criatura?
- É mesmo, dona Sônia... Não tinha pensado nisso... Muito ruim o marido da senhora. Tirou férias, arrumou mala, e largou a senhora pra trás!
- É a modernidade, Iolanda. O dinheiro só dava pra um viajar.
- Mas precisava ir lá pra Europa? Podia ter viajado com a senhora pra Salvador.
- A gente já foi à Salvador milhões de vezes, Iolanda. E além disso, ele não podia perder a oportunidade de ir pra Europa só porque eu não tinha dinheiro pra ir com ele.
- Gente rica é engraçada! Ai do Genésio se ele viajasse e me deixasse pra trás. Enchia ele de chifre.
- É...
- Por que que a senhora não arruma um homem bem bonito, hein, dona Sônia? A senhora é tão linda... Se bem que melhor que o doutor Marcelo vai ser difícil de arrumar.
- Ta bom, Iolanda. Agora me dá um tempo que eu preciso escrever.
- É mesmo, desculpa. A senhora tem que escrever... (tempo) Ôô, dona Sônia, já que a senhora não ta fazendo peça, por que é que a senhora não faz um livro? Podia ganhar um dinheiro...
- Não tenho o menor talento pra escritora.
- Mas a senhora passa o dia todo escrevendo nesse computador!
- Escrevo bobagens, só pra me distrair...
- E peça, a senhora também faz pra se distrair?
- Claro que não criatura. Fazer peça é o meu trabalho.
- E por que não ta trabalhando então?
- Porque eu to desempregada, Iolanda, será que você não entende?
- Pra falar a verdade, não entendo não. Eu, se tivesse o dom que a senhora tem com as palavras, já tava era montada no dinheiro, cheia dos livros vendidos.
- E como é que você sabe que eu tenho dom com as palavras, criatura?
- Dá pra ver até pelos bilhetinhos que a senhora deixa pregado na geladeira!
- Iolanda! Deixa de ser boba!
- Um dia, quando fui lavar uma camisa do doutor, encontrei um bilhete da senhora no bolso. A senhora falava cada coisa... até eu fiquei com vontade de ligar pra senhora!
- Iolanda! Essa conversa ta ficando muito estranha... você não tem nada pra fazer na cozinha não?
- Eu ia fazer almoço, mas a senhora me dispensou...
- Podia fazer um bolo.
- Eu não! Se fizer, a senhora vai me xingar a semana toda que ta comendo o bolo sozinha, que vai virar uma baleia...
- Tem razão...
- Vai por mim, dona Sônia! Com esses escritos da senhora, a senhora podia lançar um livro! Até eu podia... se eu juntasse todas as receitas que eu já anotei na vida, ia escrever um baita livro de culinária!
- Não tenho talento pra escrever, Iolanda, já disse. Agora me deixa em paz...
- Artista é tudo engraçado. Ta desempregada, trabalhando igual uma doida, e com vergonha de ganhar dinheiro... Ah, se eu fosse a mãe da senhora! Roubava esse computador e vendia esses textos todinhos! A senhora ia rachar de ganhar dinheiro. Até o doutor Marcelo, que vive implicando com a senhora, ia...
- De chocolate, Iolanda! Quero o bolo de chocolate. Aquele, com brigadeiro no meio. E com bastante cobertura!!!
- É por isso que Deus não dá asa a cobra... ai se eu fosse a senhora...
(Iolanda sai. Sônia volta a escrever no computador. Pára. Pega o telefone e liga pra Marcelo)
- Amooor, por que é que a gente não foi pra Salvador??? (chora).
3 comentários:
muito gostoso de ler!
beijos
Vende esse aí que já dá pra embarcar!!! rsrsrs
Bái!
gosto muita coisa viu Flavitcha...
Cheiro =]
Ayade
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