Tenho escrito coisas absurdas. Essa coisa de ter que escrever é um pouco ambígua, porque a obrigação acaba ocultando os melhores textos, que são os que partem da necessidade. Não tenho necessidade de escrever mais. Ou até tenho, mas muito raramente, e em lugares onde se torna impossível fazê-lo. Outra coisa que me torra o saco é essa obrigação de ser engraçada. Escrever stand ups não é fácil como pode parecer. Nunca sei o que vai provocar o riso nas outras pessoas. E não quero o riso fácil. Difícil ter conteúdo e forma. Ultimamente, tenho tido vontade de criar parcerias. Acho que escrever um texto a várias mãos ia ser um caos, mas um caos criativo. Tenho exercitado a capacidade de ouvir. Falo muito, sempre falei. E sempre tive dificuldade de parar pra ouvir os outros. Ouvir é mesmo muito difícil. Paradoxalmente, sempre adorei críticas. Difícil mesmo é ouvir elogios. Eles nunca me soam sinceros. Em Belo Horizonte, sempre tive amigos-chave, aqueles nos quais eu confio, e que me fazem acreditar nas boas críticas. Mas aqui... aqui a situação é bem outra. Não conheço muito bem o parâmetro crítico das pessoas – nem das que eu conheço melhor. Às vezes até conheço, é fato, mas não confio. Não gosto de gente que elogia sempre. Na verdade, não gosto de gente que elogia. “É bom” pra mim não serve. É bom por quê? O que eu sinto falta aqui são os argumentos. Talvez porque tenha aprendido a ser questionadora – e um bom questionamento está intimamente ligado ao argumento. Há tempos não tenho uma conversa cabeça, uma discussão fundamentada sobre um filme ou uma peça. Sinto falta dos acadêmicos. Polêmicos. Não estou chamando as pessoas de burras, que fique bem claro. Mas tenho tido contato com pessoas um pouco superficiais. Falta embasamento teórico. O achômetro até me interessa, em mesas de buteco e discussões informais. Mas eu tenho necessidade do conteúdo. De conversas com substância. Tenho saudade das críticas da Ana, dos arroubos da Priscila, da falsa ponderação da Isabel. Tenho saudades de sentar em frente ao barraquinho e fumar um cigarro com o Gu (ou na companhia dele). Tenho vontade de ser criticada e, depois de dar um passeio pelo poço, voltar à tona com força total. Ator é muito instável. E a estabilidade nos sufoca. Às favas com a estabilidade! O que a gente quer é não ter chão. É procurar no teto um lugar pra pisar e, de repente, se descobrir de cabeça pra baixo. O que eu quero é o sangue nas orelhas e o coração pulando dentro do peito. Estou com saudades de dizer, na coxia: “ai, Vi, tô com dor de barriga”. Tenho saudades dessa dor de barriga. Essa, que parece que vai rasgar a alma, que te faz ter medo de cancelar o espetáculo. E que some, completamente, depois que alguns movimentos são feitos. Estar no palco é sempre uma experiência singular. Eu sei, parece clichê, mas cada dia o espetáculo tem uma forma. Uma fala que se esquece, um tempo que se atrasa, um espectador que tosse, um sentimento dentro do peito. Adoro esse conceito de catarse! Essa purgação pelo terror e pela piedade. Aristóteles desenhou o conceito como uma via que partia do espetáculo para o espectador. Mas posso garantir: há um quê de purgação para o atuante. Diferente, é claro. Nosso grau de identificação é outro. Menos efêmero e ilusório. E mais esquizofrênico. A gente trabalha com o obscuro. Com estranhas facetas de nós mesmos, que não gostaríamos de conhecer. É doloroso; enlouquecedor; angustiante. E mágico. Tirando o surto de dentro, o de fora também é interessante. Estar no teatro – em cena – é um exercício metateatral. A observação do espetáculo pelo ponto de vista do atuante. O pseudo-envolvimento com a personagem e a plena consciência de si. Do que se deve fazer. Estou com saudades. Ando querendo ser outra. Essa coisa de stand-up é legal. Mas sou eu o tempo todo. Variações do mesmo eu. E estou um pouco cansada de mim...
Mudando de assunto, gostaria de frisar mais uma vez a nossa famosa frase bailística: “Eu nunca disse que prestava!”. Nunca disse. Não que eu não preste, não é isso. Mas enfim, vocês entenderam... Ando querendo fazer bobagens – mas o peso da tradicional família mineira ainda não conseguiu se desgrudar do meu corpo. Fora isso, tenho um conceito moral arraigado que também não quer me soltar! Não estou querendo fazer nada demais, não. Mas às vezes acho que estou sendo filha-da-puta com os outros. Coisa boba. É por isso que estou reiterando: eu NUNCA disse que prestava. Isso serve tanto pros caretas, quanto pros confiantes demais. A fila anda, e eu to com medo de empurrar o coleguinha da frente. Como eu cantava com a zuleica: “bobeou cachimbo cai”. Não só cai como apaga. O cachimbo é o sucesso da metáfora. Há que se dar uma baforada atenciosa, de tempos em tempos, para manter a chama acesa. A forma pode ser até resistente, mas o conteúdo vira fumaça. E vira rápido!
Mudando novamente de assunto, estou contando os dias. Faltam seis. De novo. Vem aí a trupe mais deliciosa do universo. Estou doida pra ver os malabarismos monetários, as palhaçadas alcoolizadas, as bailarinas na areia, e o domador de leões no meio da selva. Prevejo: divertimento garantido. Ainda não fiz a programação, mas estou com uma idéia mirabolante... Preciso saber o endereço da alegria! Que os outros não me ouçam, mas os melhores artistas estarão aqui – com uma ou outra exceção. Já estou preparando a pipoca, e arrumando alguém pra dividir o algodão-doce comigo. Será que vai ter maçã do amor? Vem vindo a anja e a diaba – branco e augusto. Só gosto deste clown. Dos outros tenho pena. Ai! Tragam uma garrafa de champanhe! Estou querendo me divertir... Prometo que me apresento pra vocês – meu lado mais amargo e o mais doce. Na medida das papilas gustativas. Vou ter o maior prazer de apresentá-los ao meu novo mundo. Bem-vindos!
E não se esqueçam: eu nunca disse que prestava!
Um comentário:
Gata, pro alto e avante aqui, ali ou acola! Eu boto fe em vc.
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