terça-feira, 26 de agosto de 2008

Do outro tempo

Tenho saudades do tempo em que nos beijávamos e que tudo era permitido. Saíamos, noite afora, gozando nossa embriaguez e nosso desespero. Ainda me lembro das noites mal dormidas em quartos escuros de hotel, e dos dias amanhecidos na beira das praias da nossa adolescência. Bons tempos, esses que se passaram. Os suores escorriam de maneira menos virulenta e mais contida, de modo a formar poças doces e suaves. Ainda não imaginávamos as obscuridades possíveis, e toda a nossa lascívia era nada mais do que um simples impulso pueril. Brincávamos como brincam os cachorros; não somos nada além de animais. Ainda me lembro de absurdos levantes e brigas infundadas. Mas me lembro melhor dos momentos singulares de beleza e poesia. Nos divertíamos, não podemos negar. Ainda que nada tivesse acontecido, penso que, ainda assim, sentiria saudades. As noites nunca mais foram as mesmas, depois que me distanciei. Alguma coisa se perdeu pelo caminho, ficando pregada em pedaços de asfalto negro; abandonadas na estrada. Ainda quando tento resgatá-las, não posso mais saber em que parte estão. Muito do que vivemos naqueles anos de intensidade segue preso em mim de alguma forma, arrastando correntes de uma outra época. Era boa a sensação de liberdade trazida depois de horas de descontrole. Mas era ainda mais incômoda aquela angústia do dia seguinte. Agora, enquanto reflito, me questiono como agüentamos por tanto tempo. Somos fortes. Não tivesse me distanciado, estaríamos, ainda, nos perdendo naquelas escuridões. O caminho é longo, e não o quero de volta. Mas às vezes, no barulho da noite sem fim, sinto vontade de estar outra vez no seio da amizade. Por vezes, confesso, procurei aquele calor na noite que faz aqui. Mas a noite aqui é outra – noite sem estrelas. Questiono-me, também, se ainda faço parte das estrelas que nos pertenciam. Acho que desviei um pouco a rota, penso não caber mais neste céu. Hoje sou satélite morto; busco a paz. Nos anos que se passaram, construí o que tenho de mais forte hoje, mas a estrutura se modificou com a força dos ventos. Rompantes, por aqui, não há. Só uma lenta marola de pensamentos e sussurros. Nada aqui é de fato o que parece ser. Tudo se move a favor de um objetivo torpe e sem brio. Não sei como as pessoas agüentam a pressão por tanto tempo. Há drogas. Não mais do que aí, garanto. Mas mais sujas. Mais negras. Não há diversão nas pessoas que se entorpecem: só há dor. Algo relativo à solidão, já o disse em outro momento. Tenho medo de terminar como elas, sem nenhum resquício de brilho no olhar. Mas a força de nosso passado me mantém firme, ainda de pés no chão. Procuro, em alguns lugares, aquela sensação de juventude que sentia em nossas madrugadas. Mas acordo sempre com a boca amarga de depressão, ópio vencido e não aproveitado. Sinto não poder mais participar de nossas celebrações e de nossos momentos íntimos. E sinto, ainda mais forte, que não tornarei a compartilhá-los como gostaria. A grande mudança que me propus me exige outras pequenas, das quais me arrependerei. Mas houve uma opção consciente, que me obrigou de alguma forma a ceder. Das noites nas calçadas, sinto falta dos cigarros. Pontas de luz em nossa escuridão. Pés no asfalto, jeans nos meios-fios da cidade. A união ainda me desterra. Mas a opção foi clara, e não quero voltar atrás. O álcool, por aqui, me parece desinteressante, e só quando estamos de novo juntos, tenho aquele prazer em seu sabor. É uma pena que não nos encontremos com tanta freqüência. E é ainda pior, se pensarmos que a tendência é a brusca queda deste número de vezes. Enquanto meu tempo se encurta, diminui também a minha possibilidade de ser como antes. Daqui a uns tempos, só poderei ser aquela em lugares reservados, longe dos olhares alheios. Deixaremos de compartilhar nossos momentos de maior intensidade com mentes desconhecidas. Perderemos um pouco da nossa história. Enquanto nada acontece, comungamos à distância nossos sonhos de futuro. Nosso passado ficou para trás, guardado em gavetas escuras do século passado. Mas os móveis ainda são os mesmo. Eles envelhecem, mas só acabam com a morte. Espero poder, ainda, compartilhar momentos de ternura e prazer semelhantes aos do passado. Minha boca continua a mesma. Talvez menos tenra e rósea. Mas ainda sedenta dos tragos de vida tomávamos juntos. Somos os filhos do desespero. Marionetes arrogantes, perdidas nas mãos dessa tal Modernidade.

Um comentário:

Marcela Sena disse...

Lindissimo o texto!
aiiiiiiii você me emociona!
cassilda!!!!!!!!