Fazendo coisa errada, eu sei. Mas como é bom errar de vez em quando... Nada como perder os pudores, e viver a verdade. Nada como respeitar o corpo e se render ao mau-senso. Não gosto de pensar nas conseqüências quando elas são efêmeras e – convenhamos – insignificantes. Bobagens. Apesar de tudo, somos adultos, e sabemos muito bem onde essa montanha russa vai dar. Obviedades. Por isso arriscamos. Pois sabemos dos contratempos e das ridicularidades.
(Tempo)
O tempo passou e as bobagens continuam sendo feitas. Nesse arquivo intangível, fica fácil acompanhar as desilusões e desavisos de uma vida bem regrada. Nada mais natural do que errar. Por ora, ando observando movimentos alheios, pensando em irreais e sutis separações e desencontros. Brincadeiras de adultos. Como crianças, continuamos correndo contra o tempo, tentando inibir esse tal futuro que nos apavora e nos consome. Morrer já não parece novo. A proximidade do fim nos envelhece. Rugas a mais, sentimentos a mais, tempo de menos. No relógio, ponteiros incessantes girando em torno de nossos umbigos. Vida que segue. Nada como a vida para aplacar a morte. Hoje, sinto saudades doídas das crianças que já não são. Penso em meus sobrinhos, correndo, felizes, para conhecer o novo presente. Presente é hoje. Saudade estranha da criança que fui e não conheci. Na cabeça, o tempo. Tempo demais para acreditar, tempo pequeno para se desiludir. Tenho refletido sobre trocar de profissão. Custo a admitir, mas acho que os dedos andam me dando mais alegrias do que os palcos. Decepções. Escrevo porque preciso. Desisto porque me entendo. E, dia após dia, vou elaborando esse labirinto sem saída aparente, este turbilhão de idéias que resumem a existência. Sentada no parque, sozinha, atrás de mesa enorme. Sozinha comigo mesma. Vou brincando de ser o deus da sintaxe. Vou mexendo nas palavras e guimaraneando verbetes. Escrevo o que sinto, não dicionario. Por vezes, duvido das letras e das frases. Elas não importam. Fonema por fonema, o texto se faz sólido; construindo, por si, seu completo significado. Estou travada. As cenas, perfeitas em pensamento, recusam-se a ganhar vida no papel. Não há ilusão real. Pingo por pingo, a enxurrada de letras se faz cachoeira, tocando, gelada, corações que andam em pedra. Letras são a matéria da alma. Metafísico? Não sei. Acredito nos livros e nas poesias. Duvido dos poetas e escritores. Indivíduos são veículos das línguas. Não são a arte. São a torneira por onde ela escoa incessante; por vontade própria. Hoje cantarolo uma música que não conheço. Brinco de adivinhar o futuro e de me iludir com ele. Hoje esqueço o prazer e procuro um amor. Amor calmo, como já o disse. Tenho duvidado das coisas reais. Tenho sonhado com aquele cabelo desgrenhado. Mas enquanto os carneirinhos não param de pular a cerca, prefiro manter os olhos bem abertos. A realidade me afoga. Mergulho em dias calmos de sol e brisa fresca. Firmo parcerias importantes, brinco de acreditar. Porque por nada, sem nada, o jogo da vida se desfaz. Sem querer, sem razão. Porque o último pode ser hoje, e o dia parece lindo. Carpe diem. Aproveitem.
Um comentário:
um dos seus melhores textos.
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