domingo, 27 de junho de 2010

Da partida

E não sei por que, mas toda vez que entro neste ônibus escuro, indo de volta a minha tão saudosa casa, meus olhos se enchem de lágrimas, e meu peito aperta-se com uma dor intensa e maldita, de quem podia ter aproveitado mais os instantes de paz e a companhia tão cara dos meus. Nesta volta, ainda triste, penso por que é que a separação afigura-se como monstro tão forte, já que na distância a falta se mantém igual. Então é como se o tempo passasse mais ligeiro, e o que me dói, neste banco confortável que me leva ao aeroporto, é a incerteza do tempo, que me arrasta pela vida, me tirando a possibilidade de desfrutar com calma o colo seguro dos queridos. E aí me bate a certeza de ser do mundo, e o medo incontido de não ter mais casa pra onde voltar. Porque minha estrada é no trânsito, e aonde quer que eu vá, sei que só tenho a mim. Por isso, ao abrir as janelas da noite fria, deixando o sereno me atingir, invade-me uma solidão profunda de saber-me só. Independente e forte, como sonhei um dia. Só no mundo, com a responsabilidade do caminho em minhas mãos, e uma certeza inata de que o tempo da juventude já passou, e que o tão acolhedor colo de mãe só me será dado nesses raros momentos, que acabo de deixar pra trás. Assim, sabendo de minhas deficiências e potencialidades, deixo fartas lágrimas escorrerem-me pelos olhos, traçando em meu rosto uma linha triste de certeza e resignação. Nasci para o exílio e para o amor. Por isso a partida se faz tão forte e inesperada. Tão cheia de certeza e dúvidas. Faz-se completamente inevitável e dolorosa, porque a vida é o desencontro entre os desejos e as possibilidades. E a presença do amor profundo e inalcançável. Compadeço-me de meu próprio sofrimento despropositado. Muitos já sofreram esta falta de maneira mais intensa e avassaladora. Mas o que me devasta é a proximidade perdida nas pequenas distâncias, a vontade de estabelecer um contato mais vertical e profundo, que sempre escorre pelas minhas frestas na hora do adeus. Porque a vida é o encontro da impossibilidade. Porque dói ser a gente mesmo.

2 comentários:

Robert disse...

"Porque minha estrada é no trânsito, e aonde quer que eu vá, sei que só tenho a mim."

vê só? enxergo isso por outro ângulo. pra mim, não há verdade mais maravilhosa.

um beijo, minha querida ;)

petrucia finkler disse...

esse texto tocou bem fundo em mim. Tantas das vezes que senti exatamente isso, ao ir embora, cada vez. ônibus, aeroporto, alfândegas de distância dos meus. ser da estrada tem sua atração e seu preço. e sempre dói.