quinta-feira, 9 de abril de 2009

Procedimentos

Tudo começa com uma simples manhã nublada de outono. Você acorda, se apronta com um pouco de pressa, termina de arrumar as suas coisas, e sai pela porta; deixando para trás um pouco do seu presente. Mas você não vai para um lugar qualquer. Você está indo passar o feriado na casa dos seus pais; na sua casa. Aeroporto: check-in, sala de embarque, decolagem. Lá, do alto, enquanto você se perde em pensamentos do presente e do passado, observa o mar de nuvens brancas bem embaixo dos seus pés. Não é nada demais. Não te causa nenhum espanto ou estranhamento. Apenas o céu, visto por outro ângulo, iluminado por frescos raios solares que te trazem uma sensação de vida. Aí, sem querer, lhe vem uma frase à cabeça: um mar de nuvens brancas à beira do abismo da precipitação. A frase passa, esbarra em seus pensamentos, e se vai, como um lampejo. Aos poucos, sem querer, ela passa a permear suas idéias; como uma metáfora irônica da vida. A construção não tem nada demais: apenas uma luz que lhe acendeu enquanto observava pela janela. Nos ouvidos, a poesia dos Hermanos. Aos poucos, uma coceirinha invade seu corpo e a essa primeira frase, muitas outras vão se juntando. Não há um motivo aparente. Não há um porto aonde chegar. Apenas o caminho delicioso e fugidio da imaginação. Imaginação baseada na observação e no seu modo de ver a vida. Aí basta ter um tempinho de calma – como agora, no banco do ônibus, com o computador apoiado em minhas pernas de índio – e começar a colocar pra fora as inquietações geradas por uma impressão da realidade. Não sei dizer se as coisas que escrevo aqui são verdades. Elas partem de alguma verdade – é certo – mas pode ser uma verdade inventada. Mentiras sinceras me interessam. Por isso, amiga, quando for ler estas linhas, não leia com o julgamento da realidade. Leia com a empatia do acontecimento. Verdadeiras ou não, as coisas que escrevo aqui aconteceram em mim em algum momento da caminhada. Aconteceram em mim, e não comigo. Escrevo em primeira pessoa porque me é mais fácil imaginar-me, travestir-me. Vivo disso. É um pouco como a nossa célebre discussão sobre mulheres que apanham dos maridos. Eu invento pontos de vista. Faz parte da minha personalidade testar a minha própria retórica. Criar passagens mais importantes do que o vai-e-vem da minha existência. E você – como poucas pessoas – tem o dom de descobrir minhas pequenas farsas (às vezes). Ouso dizer: tudo que escrevo aqui é verdade! Mas não se esqueça: esse foi – e sempre será – meu lugar oficial de mentir. Por isso, não veja estes escritos como um boletim semanal do meu estado de espírito. Trate-os mais como crônicas ferinas do meu ponto de vista humano. Coloco-me sempre no lugar da observação, e deixo-me comover pelas coisas que me cercam naquele momento. Pode ser que, ao fim de um texto, nem eu mesma lembre o ímpeto que me motivou a escrevê-lo. Pode ser também que, ao final, eu mesma me surpreenda com o discurso. Por isso, leia essas linhas como a manifestação mais pura do meu sujeito-pensante. Do meu lado emoção. Aqui, dispo-me da persona e coloco minhas máscaras no armário. Aqui, quem escreve são os dedos, e não a testa. Por isso, quando pousar os olhos sobre essa tela, abra-se para uma percepção mais sensorial das palavras. Tudo que coloco aqui parte do meu sentimento de perplexidade em relação ao mundo. São sempre experiências novas, pueris. E também por isso efêmeras, como um mar de nuvens brancas à beira do abismo da precipitação.

2 comentários:

Marcela Sena disse...

texto ótimo!
vou sentir saudades de você!
mesmo esquecendo meu aniversário!
rs.

Prós disse...

Pode crer, sempre fiquei puto com quem pensa que meu blogue são relatos da minha vida. E vc mesmo pensou antes de lê-lo de verdade.

Gostei da frase: "Tudo que coloco aqui parte do meu sentimento de perplexidade em relação ao mundo." E o esquema de que parte de uma verdade, mas é claro que extrapola e talz.

Finally you got it.
Bisous!