quinta-feira, 16 de abril de 2009

Canto

Um urubu no telhado, uma gaivota na mesa. Uma banheira na sala e um sorriso na testa. Preocupação no olhar, e a tristeza no vento. Palavras soltas no ar, gritos em meu pensamento. Às vezes quero acordar, por outras sonho, me perco. Às vezes quero atracar, às vezes bailo no tempo. O infinito a brilhar, a areia voando lenta. A ampulheta a virar; o mundo gira, invento. Palavras soltas no ar. Palavras: quero brincar. Palavras sempre a rodar. Palavras para pensar. É com os dedos que escrevo, é com a cabeça que penso. É com a cabeça que escrevo, e com os dedos me esqueço. Sentido sempre escondido, coisas que nunca admito. Palavras soltas no ar. Sempre a me revelar. Quando me escondo, me mostro. Quando me mostro, persisto. Quando me assusto, apavora. Quando me canto, assobio. Tento não me afogar, mas jogo água em cima. Tento não me incinerar. Mas sou a chama que brilha. Eu sou a chama que esquenta. Quando me esquento, incendeio; quando me esfrio, congelo. E se não penso não faço, mas se começo, eu crio. Sempre um passo atrás. Sempre tão perto, demais. Gosto do risco, me jogo. Gosto do medo, me grito. O susto dos meus gemidos, a boca, o peito, o cio. Coisas falando demais, coisas que ficam pra trás. O dia passa depressa, meu dia eu mesmo invento. Quando não quero não sofro. Quando não sofro, arrependo. Quero a última gota. Quero morrer, desalento. Sempre com o mundo a rodar, palavras querem expressar. Digo que diz, não diz nada. Mas nada quero falar. É só um sopro de vida. É só aquela ferida. Tempo tudo cicatriza: a casca, o verme, a coriza. Passa, passando, lá vai. É outro pano que cai. O fim de mais um trabalho. O dia, o pranto, o orvalho. Salgado, doce, amargo. O gosto de mais um trago. O vício, a marca, a vacina. Mais uma vez a chacina. É negro, é pobre, é de rua. A vida nua e crua. A gente finge que vê, a gente tenta viver. E indo assim, não se vai. A gente pensa e não sai. Preso nas grades de vidro, o peixe fica contido. Mais um aquário no asfalto. Tem mais asfalto que terra. Árvore virou história, príncipe não existe mais. Ainda sonho: cavalo. Asas num céu: branco e mar. É tudo sonho, verdade. Tudo uma irrealidade. Por isso invento, transformo. Trabalho alquímico adoro. Metal em ouro – brasão. Lágrima em letras – canção. E por aqui eu termino esse meu canto, versão. Parece até abstrato: pedra no dedo, sapato. Nada mais é do que vida, pulsando nessa batida. Tentando se misturar. Discurso bobo, vulgar. Seguindo o mesmo caminho: pretexto, texto, espinho. Só mais uma tentativa, apenas mais um lamento. Palavras soltas no ar, sempre perdidas no vento.

2 comentários:

Prós disse...

Excelente! Bem viniciano em várias partes.

Vai uma crítica que senti ao ler. Acho que no fim vc se perde um pouco por talvez tentar encontrar um Fim sendo que o verdadeiro fim é simplesmente quando acaba, a inspiração, e não quando um tipo de coisa que a gente chama de sentido busca se encontrar ou meter lá dentro sem que ela tenha sido chamada. É como cimentar o rio. Às vezes a gente tenta se encontrar e aí se perde mais, quando se encontraria melhor e mais facilmente, se nada procurasse e tudo sentisse, fluísse.

Falo porque cometo tbm o mesmo erro. Mas tento me controlar e afastar a influência cultural, grega, ocidental na nossa forma de escrever e se expressar e sentir e falar. É difícil.

Marcela Sena disse...

um dos mais criativos textos!!!
otimo!