Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Monólogo da Atriz
Sou de uma família tipicamente italiana, matriarcal. Italiano se entende no grito, não tem muita paciência para conversar. Nunca vi minha mãe pedir por favor, dizer obrigada. Meu pai sempre foi uma bomba-relógio: cheio de sentimentos por dentro, e sem nenhuma habilidade para expressá-los. Qualquer dia ele implode. Meu irmão, escondido atrás de seus racionalismos, cultiva, arduamente, o seu pequeno artista. Mas tem vergonha dele, um pouco como eu. Minha irmã seria um poço de emoção. Mas aprendeu a ser macha, como toda boa mulher da família. E tornou-se ríspida e frágil. Um oceano de águas profundas e revoltas. E eu? Eu me tornei um nada. Sempre tive dificuldades em demonstrar minhas fraquezas. Cresci ouvindo minha avó dizendo: seja macho como a sua mãe. Talvez por isso, sempre tive dificuldades de me assumir atriz. Porque ser atriz é não ser macho. É demonstrar os sentimentos, permitir-se fragilizar. Por isso, resumo-me no conflito. Sou uma mentira. Tive que amadurecer rápido demais para poder esconder meu segredo. Não podia decepcionar minha avó. Por isso – ouso dizer – sua morte foi minha redenção. Enquanto sua vida não se apagou, aqueles olhos me perseguiram, grudados em meu pescoço, sussurrando ao meu ouvido: seja macho, seja macho. Ainda hoje – confesso – posso ver o seu olhar de desaprovação, seu comentário por entre os dentes: fraca! E não consigo – por mais que eu tente – não consigo dizer “sou fraca sim, e daí?”. Passei a vida inteira tentando não decepcionar os outros, tentando trazer orgulho pros meus pais. E hoje me pergunto: e eu? Eu me orgulho de mim mesma?. Eu sou a antítese da família. Tenho fama de preguiçosa, de quem não gosta de trabalhar. Sou aquela de quem as pessoas dizem: poderia ter sido qualquer coisa, mas decidiu ser atriz. E atriz, neste contexto, é sinônimo de fracasso. De gente que não produz dinheiro, não produz conhecimento, não produz orgulho. Não é bonito contar pros amigos que tem uma atriz desempregada na família. Se eu fosse da Globo, aí sim! Aí vá lá! Para eles, eu sou uma aposta. Eles ainda têm esperança. O brilhante no ator é que, de uma hora para a outra, ele pode se tornar o troféuzinho da família. O assunto no salão de beleza. Mas alguém já se perguntou se é isso que eu quero? Se é isso que eu busco? Até hoje, quando me perguntam qual a minha profissão, eu ainda gaguejo para responder atriz. Porque ser atriz é trabalhar, todos os dias, com as minhas imperfeições, com as minhas fraquezas, com as minhas vaidades. É tentar, todos os dias, me tornar um ser humano melhor e, com isso, tentar compreender melhor os outros seres humanos. É deixar o julgamento de lado, e tentar ser compreensão. É ver-se no outro, na dor do outro. É humanizar-se. E ser humano não é ser macho. E eu fui criada para ser macho como a minha avó, como a minha mãe. Por isso, tenho o desprezível hábito de me armar com máscaras e ironias. Por isso, costumo assustar os homens. Porque fui criada para ser macho; e sou frágil. Porque fui moldada em uma forma que não me cabia e, hoje, tento romper as arestas que ainda me sobraram. É um exercício diário, doloroso. Mas sinto que estou me abrindo; aos poucos. Deixando-me mostrar em lampejos de dor e angústia. E estou me tornando melhor. Cada dia um pouco. Melhor.
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9 comentários:
sua sensibilidade tem transbordado pelos dedos, pelas letras enfeitiçadas.
sua essência de baunilha me fascina!
sinto saudade!
bjo no coração. to chegando amanhã de noite, podemos tomar uma sopa juntas! o que você acha???
estou viciada em seus textos!
também fui criada pra ser macha, pra não demonstrar sentimento, pois me fizeram acreditar que 'sentimento é fraqueza'. E também cá estou eu, no ramo da fragilidade... no ramo onde o nosso business é sentir. E hoje não me grilo. Meu pai tem horror. Diz que eu posso ser boa atriz, mas deveria ser melhor atriz com a família, num claro desvelo de que ele me prefere atuando durante minha visita anual na sala de jantar do que sendo eu sincera e verdadeira. Mas ser verdadeira é o meu negócio. E eu sofro na sala de jantar do meu pai. Me contendo, calculando comentários... escondendo o que eu sinto e o que eu acho. Já no mundo, I don't care. Choro em mesa de restaurante, me exponho, assumo minhas idiosincrasias, me deixo tocar fundo pelo que passa ao meu redor e pelo que percebo dos outros. Mas acho que só tenho hoje essa segurança pra ser aberta assim porque tenho um marido que ama justamente isso em mim. Então arrisque isso, mostrar nosso ser vulnerável pode justamente ser a chave de um relacionamento muito nutritivo cheio de verdade.
E, parabéns pela coragem de ser a antítese da familia! :)
e tenho dito, fafá. vc tem sua avó, eu tenho meu pai. somos decepções, a decepcionar - é esta a função. sofre não, bem... melhor ser...
OLá. Sou estudante de teatro em São Paulo e estava no google procurando algum texto pra fazer um exercício de interpretação solicitado na próximo aula. Gostei muito do seu monólogo e vou representá-lo. Pode? É apenas na sala de aula. Exercício rápido...
A história é real?
É sim... e não é também... é a história da minha vida, sob uma ótica literária... tudo aqui é meio inventado...
Vou interpretar o seu texto amanhã, em São José - SC. Tudo bem? A apresentação faz parte das comemorações de um teatro antigo daqui, e não tem fins lucrativos. Bjs.
Tudo bem, Graziela! Se houver algum registro, filmagem, fotos, alguma coisa assim, me manda?
Beijinhos e merda!!!
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