quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A doença do menino novo

Sumia e aparecia na janela. Ele era dado a esse tipo de coisa. Gostava de se esconder e se mostrar. Tinha um quê de feminino, seus pensamentos. Não sabia lidar direito com as questões que brotavam em si. Antes da doença, era forte. Mas agora, era apenas um pedaço de carne: esqueleto. Tinha saudade dos seus cabelos. Brilhantes, sedosos. Antes, aqueles negros cabelos traziam à tona o brilho de sua mente. Não os possuía mais: nem os cabelos, nem a genialidade. Com a quimioterapia, sua força vital tinha ido embora. Aos poucos. No princípio, pensara que seria fácil. Apenas mais uma fase, mais uma pedra. Mas a rocha agora parecia intransponível, e ele já não encontrava forças para a escalada. Dia após dia, pensava como tudo seria diferente, se não tivesse cultivado, dentro de si, aquele estranho hóspede. A tristeza se apossava dele, transformando-o em um pequeno caco. Um pedaço podre do que já fora. Tentava não sofrer, mas a possibilidade da morte sugava todas as suas energias. Tão jovem ainda... Sentia pena de si mesmo: a autopiedade era sua melhor companhia. Afastou-se, propositadamente, dos amigos. Não queria se lembrar de como era completo na presença deles. De tudo, o que mais lhe doía era a sensação de ser apenas um pedaço do que havia sido. As dores físicas já não lhe incomodavam mais. Eram apenas mais um aspecto com o qual conviver. Não entendia muito bem as expressões dos médicos. Curado – dissera um. Terminal – garantira outro. Lutava com sua consciência, tentando encontrar a saída mais próxima. Não se incomodava com a partida: de qualquer forma, teria que partir. Mas se desesperava ao pensar quantos projetos inacabados deixava sobre essa terra. Quantos amores não vividos, quantos sorrisos economizados. Chorava, de vez em quando, num misto de raiva e alívio. Queria ter tido um filho. Queria ter sido estória em alguma mesa de bar. O seria, sem a menor dúvida – mas isso ele não conseguia enxergar com os olhos cegos pelas lágrimas. Tinha raiva de seus pais. Uma raiva inexplicável, cheia de indefinido amor. Não era justo que eles o vissem morrer. A vida não fora programada desta forma. Pensava na dor da mãe em seu enterro. No choro calado do pai. Sua partida significava a violação total de sua família. Devastados. Era como iam ficar. A completude com um buraco. A dor infinita. Sua morte tiraria belos anos na vida de seus pais. Tudo matematicamente programado pela lógica absurda do universo. Tanta gente ruim... E ele, sinônimo de bondade e perseverança, a apenas alguns instantes de se tornar areia. Não tinha medo da morte. A morte é o que vem depois – se é que o há. Mas apavorava-se com a possibilidade de morrer. Morrer é ainda em vida. Pode ser sofrido, pode haver dor. O momento exato da morte é a beira de um abismo. Limiar entre o desconhecido, e o que se pensa conhecer. Tudo isso ele pensava em momentos de extrema excitação, quando se dava ao luxo de desfrutar da solidão. Desde que adoecera, desconhecia a privacidade: sempre cercado de carinhosos intrusos. Era humilhante ter de ser amparado ao tomar banho – ele, ainda tão jovem. Os exames já não acusavam o hospedeiro: tinha sido bombardeado pelos processos medicinais mais abrasivos. Mas consigo, tinha levado a capacidade do garoto, fraco, se regenerar. Agora era tudo ou nada: a dois passos da morte, com um fio de vida. A dubiedade de sua situação abalava sua confiança. “Só depende de você”, ouvia como consolo dos entes mais queridos. Mal sabiam eles que era isso que mais o desesperava. Ele sabia que podia conseguir, mas não sabia como. Não era como uma tarefa, com regras bem definidas. Ele não sabia como controlar os mecanismos de seu corpo. Havia sempre os fios vermelho e verde: qualquer corte errado causaria uma explosão. Pensava, em calmaria, sobre o que vem depois do fim. É perto da morte que a fé brota. Acreditava em outros níveis de consciência e percepção. Mas não acreditava em deus, esse ser onipotente. Naquele exato momento, ele era seu próprio deus. Tinha que fazer a vida brotar da aridez de seu corpo. Mas estava cansado, precisava repousar. Não gostava de dormir. Nunca sabia se, após algumas horas, ia lhe ser possível acordar. Dormir é uma forma de morrer aos poucos...

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