quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Do Jardim

E então o dia amanheceu claro, e eu me perguntei por que é que eu ainda estava deitada. Levantei-me com a calma dos dias ociosos, e resolvi dar-me um tempo para sofrer. Embaixo daquele sol forte, na solidão do apartamento vazio, pensei por alguns instantes na necessidade de se sobreviver. Não era como estava acostumada, não era exatamente o que eu queria fazer. Entretanto, debaixo daqueles quarenta e quantos graus, só conseguia pensar em como o dia terminaria. Possibilidades infinitas de se romper a inércia e começar a escrever uma nova história. Por trás de tudo, uma certeza inata. Não era para aquilo que eu estava ali. Não podia perder o foco ao focar-me em interesses alheios. Estava confusa. Algo como uma necessidade vital de um terapeuta assolou-me a alma, dando-me a total certeza do fracasso. Ainda era pouco. Estava me enterrando com as próprias mãos e precisava, a todo custo, interromper este processo de erosão interna que embrulhava meu estômago e embaralhava minha visão. No fundo, a calma inesperada e doentia de quem conhece o roteiro dos dias. Estava ansiosa. Mais uma vez. Com saudade de amigos próximos que se tornaram distantes, e com vontade dos amigos distantes que se aproximavam com o passar dos dias. Domingo teria almoço e conversa. Sorrisos e cumplicidade. Não sabia o que aconteceria até lá. O que sabia é que o tempo passava ligeiro, e atropelava-me os pensamentos. Por dentro, um fogo ardente e aquela vontade inextinguível de brincar de ser outrem. Um sufoco assustador de me pensar responsável e capaz, e de assistir de longe a vitória que também era minha. Ossos do ofício. Estava atordoada. Mais atordoada do que nunca. As pequenas surpresas me massacravam como notícias mórbidas de um terremoto distante. Estava apavorada. E de longe, ao longe, aquela possibilidade latente de felicidade, que teimava em surpreender-me e tentar-me. De longe o diabo e São Jorge, mesclados em um mesmo painel. Por isso, quando acordei suada do calor da noite, e percebi que o dia já raiava enfim, fiz uma prece rápida para que as coisas encontrassem seus devidos lugares, e que a tormenta se acalmasse em mim. Fechei os olhos e pensei na dor e na delícia de ser. E sofri calada a solidão da tarde que caía, pedindo, em silêncio, por flores mais vermelhas e mais cheias de espinhos. Para que eu pudesse, em breve, me ferir e me curar ante a beleza do jardim.

4 comentários:

suu (= disse...

nossa adorei o tema do seu blog me indentifique muito com ele parabens

Franzé Oliveira disse...

A vida é um charco...
Ame ela vira tempestade.

Prazer em conhecê-la.
Beijos com carinho.

Flávia Prosdocimi disse...

oba! novos leitores!!!

sejam bem vindos! mas não se esqueçam: esse é o meu lugar oficial de mentir!

beijos e obrigada pelo carinho!

Maresia disse...

Quantas vezes calamos a solidão, a ausência a dor, quantas vezes nos encontramos no meio da multidão e no entanto continuamos com uma sensação de vazio instalada na alma.

bj