Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
terça-feira, 10 de março de 2009
Escuridão
Andou silenciosamente pelo corredor vazio. Na penumbra, as paredes pareciam cada vez mais assustadoras. Quando é que vai terminar? – pensou. Tomava cuidado para que seus passos não ecoassem naquela imensidão de vazio. De tudo, o que mais lhe importava era o silêncio. Não queria parecer confuso ou inconveniente. Gostaria de sair dali do mesmo jeito que entrou: sem ser percebido. A cada minuto, sua ansiedade aumentava; e a demora em chegar à saída acabou lhe trazendo uma incômoda sensação de abandono. Ele não gostava de se sentir frágil. Mas era inevitável. A cada conjunto de passos, uma olhada para trás. Queria ter certeza de não estar sendo seguido. Ninguém o notara sair. Perdido na umidade daquelas galerias, refletia sobre os motivos que haviam lhe trazido ali. Ele não precisava ter vindo. Não deveria vir. Mas precisava ver com seus próprios olhos toda aquela podridão. Todo aquele torpor, espalhando-se como um vírus na cabeça daquela gente. Não pertencia àquele mundo. E não queria crer que havia entrado naquela vida por puro prazer. Nem uma luminosidade. Será que haveria, de fato, a tal luz no fim do túnel? Tudo aquilo parecia interminável e, às vezes, ele tinha a nítida sensação de não ser dono de si mesmo. A angústia lhe corroia como um ácido barato, abrindo em suas entranhas buracos que jamais seriam fechados. Começou a duvidar de sua inteligência. Ele não poderia ter ido ali por vontade própria. Era por demais degradante. Era como a morte em vida. O silêncio ecoava pelas paredes imensas, e ele se sentindo cada vez menor. Mais pequeno – como gostava de pensar. Não havia desespero em seu semblante. Seu rosto era de calma. Uma calma decidida, de quem tem um foco bem definido. Tudo que queria era sair dali sem ser notado. Tudo que desejava era nunca mais lembrar daquela noite. Olhou suas mãos, ainda – e cada vez mais – sujas. A imundície daquele lugar estava começando a fazer parte também dele. O melado de sua mão se juntava ao pó e à fuligem e, aos poucos, sentiu-se também mofado e putrefato. Não era de assustar que muitos não conseguissem sair dali. Uma vez imerso em tal degradação, a vida normal devia assemelhar-se ao paraíso. Uma lembrança utópica e efêmera, que cismava em aparecer nos raros momentos de lucidez. Pensou em soltar um berro, gutural e pavoroso como sua dor. Mas não queria que lhe percebessem. Não queria outra mão amiga para lhe jogar na lama. Já estava sujo demais. Só agora conseguiu dar-se conta de que estava sem camisa. A ânsia de abandonar aquele lugar depressa lhe fizera esquecer-se por completo dela. Era um rastro que tinha deixado para trás. Foda-se – pensou. Não haveria quem descobrisse aquele pedaço perdido. De qualquer forma, muitos deles, por várias vezes, já tinham voltado para casa com camisas alheias. Naquela confusão de corpos e roupas, nunca notariam a prova de sua fraqueza. Sentiu embrulhar-lhe o estômago – como se já não fosse suficiente todo seu mal-estar psíquico. Respirou fundo. Agora não ia parar. Não podia parar. Parecia tão perto... Parou. Com as mãos apoiadas naquelas paredes imundas, vomitou por alguns instantes; e aquele vômito quente, subindo-lhe pela garganta, deu-lhe de novo a sensação de asco que sentira na hora de engolir aquela podridão. Ele não podia ter feito aquilo. Era baixo demais, sujo demais. Era repulsivo, até mesmo para ele – que não ligava a mínima pras regras hipócritas de boa conduta. Balançou a cabeça por um instante, tentando recobrar a razão perdida, e decidiu, imediatamente, esquecer o passado. Ele jamais voltaria a pensar nisso. Nada daquilo tinha acontecido. Era um sonho ruim, uma viagem de droga barata, uma ressaca de adolescência. Nada além de um pesadelo. Revolveu os bolsos a procura de um cigarro – pelo menos um – mas só encontrou aquele maço de notas amassadas, fedendo a homem e à cerveja. Quantas pessoas pegariam aquelas notas, sem saber por onde elas haviam passado? Quantas as abençoariam? Teve nojo daquele dinheiro sujo. Teve vergonha de seu próprio pau. Será que Deus se incomodaria com o mau uso do seu instrumento? Será que o Diabo tinha ganhado o dia? Na memória, flashs de pedaços de corpos nus. Vários pedaços. Vários corpos. Uma orgia multicolorida e internacional. Não conseguia esquecer aquele maldito alemão. Filho da puta. Pegara-lhe desprevenido quando menos esperava. A porra descendo pela garganta, e o pau entrando pelo cu. Bela merda. De novo o vômito. Suas mãos, meladas, já tinham adquirido a coloração daquelas paredes. Achou, por um momento, que nunca mais conseguiria se limpar. Que merda, que merda, que merda. Olhou mais uma vez para trás e, por um instante, não soube dizer ao certo de que lado havia vindo. Aquelas galerias pareciam intermináveis. Aquele cheiro parecia exalado por seu próprio corpo. E a ansiedade da luz ia corroendo-lhe a alma. A luz, que nunca chegava. Acelerou um pouco o passo. Olhou mais uma vez para trás. Com os pés molhados pela lama, perguntou-se como podia ter descido tão baixo. Tinha vergonha de si mesmo. Ele só queria sair dali.
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Um comentário:
Seus textos estão reais. Gostei de ler, me causou arrepios na pele!
beijos
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