sábado, 7 de março de 2009

Pequenas bobagens

Apareceu entre os arbustos da praça em um dia frio de inverno. A princípio, ninguém notou. Manteve-se ali por algum tempo, ignorando a ignorância das pessoas. Logo começou a sentir inveja. Outros eram observados e até elogiados, enquanto ele permanecia incógnito. Aos poucos, passou a ter raiva. Uma raiva injustificada das pessoas que se sentavam naqueles bancos. Afinal, ele não era tão pequeno assim. Muito pelo contrário. Era protuberante, esbelto, viril. Ainda assim, ninguém lhe notava a presença. Era difícil – pensou – mas não havia nada a fazer além de esperar. Fortalecer-se e esperar. A qualquer momento alguém podia notar-lhe a beleza.

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Fingia permanecer concentrada, enquanto observava cada detalhe do seu corpo. As pernas, o tórax, a barba, todas as notas daquele corpo-harmonia. Havia se apaixonado em segundos, como nunca lhe havia acontecido. Ainda não sabia muito bem como agir. Sentia-se adolescente, infantil. E, de fato, disse algumas idiotices depois que a aula acabou:


- Algum problema?
- Não, por que? Pareço ter algum problema?
- Não. Sim. Na verdade, te achei meio distante na aula hoje.
- Ando com dificuldade de controlar meus pensamentos.
- Não entendi direito.
- Estou um pouco dispersa, é só isso.
- Tem certeza? Se precisar de ajuda, já sabe, né?
- Você pode me ajudar.
- Isso foi uma pergunta?
- Uma afirmação.
- Então diga! Você quer conversar?
- Não sei se seria uma boa idéia.
- Não estou te entendendo. Você quer, ou não quer ajuda?
- Olha, eu sei que parece idiota. Na verdade, é idiota. Mas eu acho que a ajuda que você está me oferecendo não é exatamente o tipo de ajuda que eu estou querendo aceitar.
(ele se aproxima. Fala ao seu ouvido)
- Talvez você não saiba o tipo de ajuda que eu estou oferecendo.
(ela se afasta com um sorriso.)
- É. Acho que a gente devia ir pra um lugar mais reservado. Vou só trocar de roupa.
- Te espero lá embaixo.
(ela se troca e desce. Ele, conversando com outros alunos. Ela passa, se despede, e dobra a esquina. Ele também se despede, e vai atrás dela. Ela fuma um cigarro)
- Você é louco!
- Eu achei que você tivesse ido embora sem mim!
(Ela dá a última baforada. Os dois ficam envoltos em uma leve fumaça perfumada)
- É impressão minha, ou você está me provocando?
- Você não pode negar que existe alguma... hãã... energia entre a gente.
- Você tem idéia de como foi difícil eu me concentrar na aula hoje?
- Eu vi. (ele ri)
- E você está achando graça? Eu morrendo de medo de alguém perceber, e você passando cada vez mais perto, encostando em mim “sem querer”...
- Foi um jogo excitante.
- Interminável.
(a essa altura, já não olham-se nos olhos. Estão vidrados na boca um do outro)
- Delicioso.
- Mal educado!
(beijam-se.)

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“Ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre”

Um comentário:

Marcela Sena disse...

AAAh, que bobagem!
rs.