quinta-feira, 19 de março de 2009

Chinelo velho

Chinelos de borracha. Nada além de chinelos de borracha. Uma bobagem industrial que acabou unindo toda uma nação. Do chique ao brega, do sul ao nordeste. Nada mais do que um simples chinelinho de dedos. Na minha época era Rider, devo confessar. Rosinha, que dava pra colocar de meias. Um terror estético – admito – mas eu gostava. Era o meu xodó de criança. Devo ter tido pares e pares iguais... acontece! Depois a gente cresce e se esquece do conforto. Quer os pés bonitos em cima de uma sandália escandalosa. Tudo para agradar algum par de olhos castanhos, perdido numa multidão que, em geral, não te enxerga. É a vida, não há o que fazer. As convenções sociais acabam por enterrar o sujeito, coitado. A sete palmos do chão; ainda vivo. A gente se debate, luta pra respirar, mas acaba cedendo. Nas nossas inseparáveis calças jeans, e nos decotes recortados para peitos de silicone. Meu corpo está bem fora dos padrões, devo dizer. Peitico. Não me incomodo – de forma alguma! Mas me incomodam, às vezes. Uma pressão danada para me render à plasticidade. E eu recuso! Tenho peito! E não quero barriga de tanquinho. Pra lavar roupa, tenho máquina, graças a deus. Mas já estou me rendendo ao regime – olha quem está falando! Sou obrigada. Dois quilinhos a mais e meu agente, ó! Me coloca na geladeira. Ai, vida difícil. Só o chinelinho de dedo mesmo, pra juntar toda essa gente numa celebração da utopia. Ô coisa boa! Eu ando procurando o meu par de chinelo velho. Devo admitir que meu pé está um bocadinho cansado... E até já achou onde descansar, olha que beleza. Mas ele é apenas uma ilusão. Um oásis no meio do deserto, a luz no fim do túnel. Mas não me enxerga. Acreditem: ele nem me vê. Seu olhar me ultrapassa e se encontra com a parede. Longe. Distante. Atrás de mim. E eu olhando pra fora. Pra ele. Que aconteça um milagre, peço aos demônios que me rodeiam. Que eu tropece nos seus pés em outro espaço. Acho que vou comprar a novidade do momento. Vou entupir-me de tarjas pretas. Quem sabe acordo listrada, como uma zebra, impensante. Quem sabe durmo acordada, e tenho idéias melhores do que as que me passam agora... Desculpe-me por gastar o seu tempo! É que o meu anda escasso, e estou com vontade de permear-me de idéias alheias. Por isso vim compartilhar essa bobagem. Pra gente brincar um pouco. Estou com vontade de me divertir...

2 comentários:

petrucia finkler disse...

Flávia, concordo.
entre os diferentes plásticos, silicones e borrachas que podem unir uma nação, sou muito mais o solado que não deforma e as tiras que não se soltam do que o decote uniformizado. ;)

Marcela Sena disse...

gosto de havaianas.
gosto dos seus textos.
prontofalei.