- Eu já disse que não quero conversar.
- Você não tem escolha.
- Claro que tenho: posso conversar, ou não conversar. E eu não quero conversar.
- Neste caso, você também me obriga a escolher: vou fazer minhas malas.
- Ah, eu não acredito! Você vai embora?
- Claro, você não quer conversar!
- Mayra, sem exageros! Você está sendo intransigente.
- E você infantil.
- É, ok, eu estou sendo infantil...
- Então vamos conversar?
- Eu não quero conversar porque eu não sei o que eu quero. E quando é assim você sempre me convence que eu quero o que você quer que eu queira!
- Ahn?
- Deixa pra lá.
- Às vezes parece que eu estou te fazendo uma pergunta muuuuuito difícil!
- E está!
- Estou?
- Está.
- É, então é melhor a gente não conversar mesmo. Eu definitivamente não consigo entender esses fantasmas que assombram a sua cabeça.
- Nem eu.
(Ele, melancólico. Ela pensativa. Silêncio.).
- Será que é um problema psicológico meu?
- Como?
- Um problema psicológico, sabe? Sei lá... Essa coisa de não conseguir escolher nunca!
- Acho que é imaturidade. Você sempre quis abraçar o mundo com as pernas!
- Mas já tem tempos que eu não sou assim, Mayra. Será que você não percebe?
- O quê?
- Que eu mudei. Sei lá, eu mudei. Antes eu queria o mundo, tinha sede de viver! Hoje eu não quero sequer abrir a porta desse quarto.
- Pode ser depressão.
- Talvez... mas eu não acredito. Sabe o que eu acho? A gente muda de personalidade... Assim, ao longo da vida. Muda de personalidade.
- Acho normal, Miguel. A gente está em constante transformação. Imagina ser o tempo inteiro a mesma coisa? Que chato...
- Acho que você não está entendendo muito bem o que eu quero dizer.
- Estou sim... Só acho que é normal passar por essa fase! Você está indeciso, angustiado... daqui a pouco volta tudo ao normal.
- É aí que está. Não acho que vá voltar ao normal, não acho que é passageiro. Acho que mudei a minha forma de ver, de me relacionar com o mundo. Me tornei mais melancólico, é isso.
- Você está infeliz?
- Que pergunta, Mayra!
- Está?
- Não sei... às vezes eu acho que você não me enxerga!
- Eu??
- É, você. Parece que você não percebe que eu mudei, que eu estou diferente. (Pausa). Parece que você está sempre esperando o velho Miguel voltar.
- Acho que você também não me entende...
- Eu?
- É! Não entende que eu sinto falta da gente. Do velho Miguel, da velha Mayra. A gente formava uma boa dupla.
- Ainda forma.
- Será? Acho que a gente não se entende mais. O nosso amor virou silêncio.
- E tem coisa mais linda do que o silêncio a dois? Acho que a gente precisa entender que cresceu, Mayra. Nós não somos mais dois adolescentes brincando de casinha.
- Às vezes eu acho que a realidade engoliu a gente... Logo a gente, que sempre achou que nunca fosse se render a ela.
- Talvez... talvez você tenha razão.
- Você ainda me ama?
- De todas as dúvidas que me apavoram, a única certeza que eu tenho é você. Que você vai estar aqui quando eu acordar, e que vai velar meu sono, enquanto eu dormir.
- Eu não sei o que eu faria sem você. Acho que eu esqueci que passei anos da minha vida sem te conhecer.
- Eu vou ficar bem, prometo. É só você me dar um abraço.
(Luz cai em resistência. No escuro, soluços de Miguel. Um choro sofrido).
Às vezes, só amor é pouco...
Um comentário:
sincera: fiquei arrepiada.
amor, simples!
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