terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Cuidado, garoto.

Cuidado, garoto, você pode se machucar. E se machucar não é só ralar o joelhinho, como você fazia há tempos atrás. Os machucados de gente grande doem por dentro, e às vezes doem mais do que a razão. Cuidado, garoto. Não vá achando que este sorriso fácil engana as mulheres. Já não somos mais as mesmas, e também temos nossos sorrisos, se você quer saber. Para quem entrou no jogo com cartas sujas, pra mim, você parece, agora, um iniciante. O jogo sempre pode virar. Por isso cuidado. Cuidado com o que fala, com o que sente. E não pense demais que as suas ações serão analisadas. A falta de ação também é uma atitude. Por isso cuidado, garoto. O jogo por aqui mudou. Agora já há cartas na mesa e, aos poucos, estamos nos abrindo aos olhares. Não tente se esconder, você já está exposto demais. Por isso, se decidir jogar limpo, não basta apenas abrir o sorriso e a garrafa. A porta pode ainda estar trancada. E você precisa da chave. Aquela, que você guardou dentro de si, e não soube mais procurar. A chave está dentro. E a porta, ainda trancada. Portanto, apresse-se. Dizem por aí que outras chaves estão para ser distribuídas. Que a curiosidade está tocando a campainha. E você sabe, garoto. Você sabe muito bem o que te espera do outro lado da porta. Do outro lado do medo. O tempo está passando, e o tempo destrói tudo. Já há ruínas por trás das portas. Ruínas de outros garotos que, como você, não souberam a hora certa de parar. Que não souberam começar. A estrada ainda pode ser construída – ela sempre poderá. Mas a cada minuto, há mais destroços no acostamento, e o solo, aos poucos, vai se tornando mais árido. O tempo seca; o sol. Não destrua com silêncio o que você construiu com sorrisos. É só o que te peço. Cuidado. O jogo está ficando perigoso demais, e eu já me perdi no tabuleiro. Confundo o início e o final, já não sei onde quero chegar. Por isso cuidado! Não se esqueça que eu sou apenas uma mulherzinha – munida dos meus sorrisos – mas criada dentro deste mesmo jogo. Não costumo desistir de brincar, mas também não serei a primeira a jogar os dados. A luz já começa a cair e, ao longe, já consigo ouvir a música tocar. Há uma festa acontecendo em outro lugar, garoto. E eu estou tentada a participar. Por isso cuidado. São só mais alguns minutos para eu terminar de me arrumar. Só mais um brilho nos olhos e um sorriso nos lábios. Já estou subindo nos saltos. E estou disposta a borrar minha maquiagem. De lágrimas, ou de suor. Você pode vir comigo, se quiser. Mas cuidado, garoto. O tempo está passando e só nos restam alguns minutos. Curtos. Não sei se é impressão, mas parece que a música acaba de entrar pelo buraco da fechadura. E acho que só a sua chave pode fazê-la parar. Mas cuidado. Se você não se apressar, pode ser tarde demais...

Um comentário:

Marcela Sena disse...

Parece que você me leu antes de conversar comigo.
to impressionada!