sábado, 15 de novembro de 2008

Sobre o tempo

Estava pensando em fugir pra algum lugar que não me lembro onde... mas aí desisti, sei lá. Me deu uma vontade estranha de ficar aqui. Às vezes sou assim: mudo repentinamente de opinião. Já falei sobre isso antes. Aliás, vivo me repetindo. Acho que estou precisando me reinventar. Estou muito certinha, muito no eixo. Estou precisando me desconstruir e inventar uma nova “eu”: um mais do mesmo – igual, só que diferente. Estou orgulhosa de mim hoje, um pouco sem motivo. Mas tenho aprendido a admirar e celebrar também as pequenas conquistas. Tenho tido saudades de grandes vitórias e grandes desafios, mas tenho me contentado com os pequenos pepinos cotidianos, com as amizades brotadas em rocha sólida. Tenho me aberto mais. E foi correndo pela rua, atrás de alguns ônibus que nunca voltaram, que percebi algumas coisas. Gostar é deixar de lado, é deixar ir embora. O desprendimento e a crença na felicidade alheia são duas coisas muito louváveis. E são simples, ouso dizer. A gente fica muito preocupado com picuinhas terrenas. Com probleminhas de comer-e-dormir. A vida é muito mais do que isso, olha que bobagem! Nos preocupamos com as coisas erradas, nos desculpamos por motivos obsoletos, nos estressamos por pequenos detalhes. As coisas são tão banais... Nada mais gratificante do que se reunir com amigos – pessoas queridas, amadas e admiradas – para falar meia dúzia de bobagens, e voltar pra casa com a cabeça mais leve. O tempo passa rápido, é uma contagem regressiva incessante. E perdemos tanto tempo... Acho que é por isso que não gosto de relógios. Quem me conhece sabe: até hoje não sei olhar nos de ponteiros! E não uso aquele modelito de pulso nem que seja o último grito da moda. Odeio me sentir refém de algo que deixa de ser a todo instante. O tempo é o pior dos mutantes. Às vezes queria ser Zeus, pra matar Chronos e ficar, por toda a eternidade, estacionado nesse infinito. Mas tenho pra mim que essa tal eternidade, essa certeza da imortalidade, tornaria as coisas muito mais chatas e menos valorizadas. Por que viver o agora se o amanhã estará sempre lá? Essa ilusão, por muitas vezes, é colocada em prática no nosso cotidiano. Mas ela é irreal, e sabemos disso. Quando colocamos na ponta do lápis as medidas de tempo, passamos a nos assustar com sua enorme velocidade e voracidade. O tempo destrói tudo – é a máxima de “Irreversível”. De fato, tem coisas que jamais conseguiremos mudar. E o tempo é esse pai sádico, que nos castiga aos poucos, e ri de nosso desespero; até que sucumbamos à sua fome implacável. A mitologia greco-romana não passa de uma alegoria. Mas é uma forma bonita, de contar essa nossa história triste de mortais pensantes, que sabem, antes de qualquer coisa, que a única certeza absoluta é sua própria finitude. Tenho problemas com a morte. Tenho a sensação de que mesmo que morra aos 200 anos, ainda terei muito o que viver. Mas as trajetórias são diferentes, e essa sensação, pueril. Minha avó, que morreu aos 91 anos, há muitos não via mais razão na existência. Não acendia a luz pra não gastar energia elétrica, não passeava pela casa por não ter mais o que se ver, se desinteressou pela comida por não ter mais o que provar. No fundo, seus dias na poltrona da sala não refletiam mais do que sua vida interna: as paredes vazias eram a metáfora perfeita de sua existência nos anos finais. Lembro de sua tristeza ao revisitar velhas fotografias, e descobrir-se como a única ainda viva naquele pequeno pedaço de lembrança. O passado pode ser tão esmagador quanto o futuro incerto. Hoje, dois anos depois de sua morte, acho que entendo um pouco sua falta de tesão pela vida. Tudo deve ter um fim – desconfio eu. Mais ainda me espanto com a possibilidade do fim estar próximo, do meu tempo estar terminando. Não sei se quero viver o suficiente para ver todas as pessoas que eu amo morrerem: uma a uma. A vida é mesmo uma solidão comunitária. Um experimento maluco de amor e doação. Abram-se ao máximo! É só um conselho obvio que tenho tentado praticar. E sejam o melhor que puderem, pois o fim está próximo. Mais próximo do que gostamos de admitir. E é mais interessante ser uma lembrança inspiradora e inquietante, do que ser mais um rosto morto numa fotografia amarelada no fundo de uma gaveta qualquer...

Um comentário:

petrucia finkler disse...

este texto me deixou melancólica. talvez seja a neve que começa a cair levinha lá fora e o tempo que se encaminha para o fundo da escuridão do inverno.
para toda a natureza ciclos e finitude são normais, parte natural da existência. A natureza é "planejada" com isso, ela se recicla, ela tem sempre quem cuide de consumir o que passou.
É o homem moderno que tem esta dificuldade com a finitude das coisas. A gente só se preocupa em produzir, produzir, sem nunca botar na equação como será o fim do que se produz. A gente não faz engenharia da deterioração, do desmanchar-se. Taí nossa produção ridícula de lixo atrolhando o planeta pra provar. E o tempo cobra as contas dessa nossa leviandade.