sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Opções

Cada escolha traz consigo um arrependimento. Às vezes, na ansiedade da decisão, optamos por espaços menos vantajosos, por esperanças nunca concretizadas. Escolher é uma forma de rejeitar justificadamente. Quando se caminha pela alameda mais bonita, deixa-se de conhecer a ruela menos arborizada, e vice-versa. Durante todo o tempo, mesmo sem perceber, fazemos opções que alteram, em menor ou maior grau, o curso dessa nossa vida. É o tal efeito borboleta. Se soubéssemos o que cada atitude de agora pudesse causar no futuro, talvez fossemos mais corretos. Mas com certeza seríamos também mais artificiais. A beleza da vida é a multiplicidade de escolhas. É a possibilidade do erro e do engano. Às vezes a decisão mais acertada para o momento, lhe parece absurda depois de alguns instantes. Há sempre perdas, não se engane. Sempre, em qualquer ocasião, por mais simples que seja a escolha; sempre ela lhe apresentará uma faceta positiva e uma negativa; não necessariamente proporcionais. Há, obviamente, situações mais simples, e outras mais complexas. Há opções que acarretam outras opções subseqüentes, e escolhas que esgotam uma possibilidade. Acho estas sempre menos acertadas. Sou do tipo que vive até a última gota, que só aceita um final quando ele mesmo se impõe. Estou um tanto quanto acostumada com as perdas. Mas costumo encará-las com naturalidade. Quando se perde uma partida depois de dedicar-se ao máximo, o resultado é o que menos importa. Gosto mesmo é do jogo, da performance. Por isso costumo jogar até o final, até o fatídico apito final. A maioria das pessoas esquece de guardar os pequenos cristais encontrados no caminho! Mas são eles que nos acompanham por toda a estrada até o acidente derradeiro. Viver cada dia como se fosse o último é muito utópico. E, cá pra nós, seria demasiado caótico também. Mas trabalhar a idéia de finitude, e calcar nossas escolhas na certeza de que tudo é efêmero, de uma forma ou de outra, para mim parece muito interessante. Sou do tipo que se entrega, a minutos do fim. Que recolhe os próprios cacos com a dignidade de quem ousou tentar. E que conquista vitórias inimagináveis apenas porque não as pensou possíveis. A vida é a fartura de possibilidades. Cabe a nós escolher, dia a dia, qual será a nossa nova estrada. Somos como aquelas escadas de degraus soltos: há que se retirar o anterior para se construir o seguinte. Há que se encarar o passado para construir o futuro. E há que ser leve, pois carregar um peso desnecessário poderá interromper intermitentemente a nossa ascensão. Tenho aprendido a transformar meu passado em sementes para o futuro. Todas as coisas que vivi até agora, me ensinaram a postura que tenho hoje. Mas tento fazer desta proteção uma armadura maleável. Quero ser permeada por idéias alheias, quero ser tocada quando menos espero. Quero me emocionar com ilusões e descobrir como é bom se deixar sonhar. Estou numa fase de decisões muito importantes. E tenho medo de me arrepender das escolhas. Mas estou aberta ao erro. Estou expondo as minhas fragilidades e sentimentos. Ando querendo mudar de casa. Estou procurando um lugar pra mim. E essa mudança abala estruturas, desmorona confortos. Essa mudança me arranca de dentro de um corpo sólido para me jogar no fundo de um poço de areia movediça. Instável. Quanto mais eu me mexo, mais impregnada fico. Quanto mais tento gritar, mais sufocada me sinto. Estou com as vísceras expostas, vou vagando por aí. Mas tenho comigo uma certeza inata. Tenho um tipo de sabedoria milenar. Por mais que a minha alma insista em vagar, por mais que o controle às vezes me falte, por mais perdida que eu pareça estar, tenho sempre um abrigo perfeito. Sempre algo ao alcance das mãos. Porque mesmo na confusão e na incerteza, mesmo na dúvida mais extrema, minha decisão sempre converge para a minha própria essência. Porque se tem um lugar que eu sempre me acho, mesmo quando não me procuro; porque se há um lugar seguro, esse lugar é dentro de mim.

2 comentários:

Marcela Sena disse...

sincero!
bonito!

petrucia finkler disse...

"A vida é a fartura de possibilidades". Uau. Gostei. Vou guardar isso.
Eu sempre penso também muito nisso das escolhas. De que o que vivo hoje é a exata consequência de todas - absolutamente todas - as escolhas que fiz, mesmo a roupa que estou usando, o computador que estou digitando, o chá que tomei agora há pouco. Tudo.
A carta dos amantes no Tarot fala disso. Na filosofia do Tarot não existem escolhas erradas, mas a gente tem que escolher. Deixar-se escolher pela vida também é uma escolha, mas bancar as nossas escolhas, apostar conscientemente é sempre mais poderoso. Eu desejo muita sorte e sabedoria nestas decisões que vc vai com certeza encontrar dentro de vc. :)

p.s. Seu último texto, eu não tive coragem de comentar aqui. ;)