Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Chuta que é macumba!
Quando eu digo ‘tens cuidado’, muita gente me ignora. Sorriem um pouco de lado, se fiam no brilho da aurora. Mas o que esse povo não sabe, é que o seguro já faleceu. E que cada um se previna: antes ele do que eu! Nessa de se garantir, resolvi foi inovar. E passei a freqüentar a casa de quem já se foi. Quem aqui não está mais, conversa de outros assuntos, têm toda a sabedoria do mundo, não falam do que é banal. Mas a proteção é bem-vinda do lado que aparecer, e como não há quem me proteger, recorri ao lado de lá. Na casa verde que eu freqüento, a bondade é imperatriz. E não há quem um dia não quis entrar lá e agradecer. Tem gente que se amedronta, outros que se acovardam, mas quem entra muxoxado, tende a sair feliz. Pode não se acreditar, de crença não necessita: só é preciso abrir os olhos e deixar-se escutar. Esse espaço que eu freqüento recebe pretos e pobres, recebe ricos e nobres, e gente que não é daqui. E naquela roda de coco, no surdo dos atabaques, é que brilham badulaques e estremecem esqueletos. E é de dentro desta roda, que o demônio me aparece, e com um sorriso me oferece a brancura de sua mão. Ajuda dele não aceito: não quero e não necessito. Porque dos meus assuntos prolixos, prefiro eu mesma cuidar. Mas o cabra ruim me protege. Protege quem é de bem. Porque ao contrário do que dizem, ele não é de confusão. Só que sua justiça é torta, coisa de quem já se foi; e o preço de seu auxílio, é entregar-se pela mão. Não gosto de me sujar, prefiro a consciência tranqüila, por isso, de tempos em tempos, vou lá só me aconselhar. Na macumba que eu freqüento, bruxaria já entrou. O que comanda é a wicca, onde um dá o que levou. Mas pro caso da maldade, da injustiça e do amor, a regra se triplica: três vezes o que se desejou. E se pedires uma graça, pense bem; pense melhor. Lá nada é dado de graça, há que ser merecedor. E se ganhar de cortesia – algo que queira ou que precise – abra o olho, fique esperto: a conta é cobrada depois. Nesse terreiro de umbanda, gente ruim fica a deriva, e só leva dessa vida o que nela mesmo plantou. Por isso tome cuidado: previna-se, plante direito. Porque mesmo que demore, o troco há de chegar. As flores vêm a galope pra quem obedece certa linha. E mesmo na queda mais fria, há alguém pra lhe amparar. Na macumba que eu freqüento, toda mãe é menininha. Todo dia há novidade, pra eu não me entediar. Por isso o altar da frente, às vezes não leva santo. Leva apenas um atabaque observado pelo luar. E é quando a lua é cheia, que há mais graça pelo mundo, que até mesmo o vagabundo pode enfim profetizar. Na garrafa de aguardente, em alguns goles de cidra, nos cigarros aromáticos que se extinguem pelo ar. E é pela gargalhada que se mede a temperatura: quanto mais quente mais pura; quanto mais alta, mais mar. Pois esse terreiro de umbanda, se embasa nos elementos. É, pois, terra, mar e vento, e um fogo a crepitar. E é nesse lugar irreal, cheio de oculta magia, que escondo os meus amigos que insisto em soterrar. Somos parte do mesmo corpo. Vivemos em harmonia. Mas dividimos uma cabeça: e cada cabeça é um guia. Não acreditamos num Deus, não gostamos de rezar. Mas praticamos o bem, que existe em qualquer lugar. O meu terreiro é bem pequeno, e cabe em qualquer covardia, serve num metro quadrado, está sempre a me rodear. Se quiser vir freqüentar, faça votos de bondade. Traga vela, rosa branca, e um punhado de alecrim. E se é do tipo rezadeiro, por favor, não esconjure. Pois a graça da macumba, é que cristão pode ficar. Só me tire, por favor, o agudo daquele “amém”. Digam “amem”, amem muito, amem do verbo amar. Só não se esqueçam de depois, como forma de agradecimento, colherem uma folha ao vento, e por fim atirá-la ao mar. Pois é dando que se recebe. É plantando que se transforma. E nada como um suspiro, e um beijo pra Iemanjá!
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3 comentários:
nossa, este texto me levou por tantos caminhos... e o ritmo é tão marcado que parece uma gira.
Vc mexe com wicca é? ou está havendo uma mistura de wicca dentro da umbanda? o Brasil é muito engraçado... tudo sempre se mistura.
Eu não sou wicca. Mas sou pagã. Pura.
opa opa opa! peralá, vamos com calma! lembrando que o blog se chama "fragmentos de uma vida inventada", rsrs. nem tudo que escrevo é verdade -- aliás, quase nada é totalmente verdade. não sei nada sobre a wicca, e conheço muito pouco de umbanda. mas isso faz parte do imaginário do brasileiro... é apenas parte do meu dna africano. não acredite em tudo o que lê! aqui é meu lugar oficial de mentir...
aviso importante: leram e ainda assim gostaram! tudo muito sábio, com agua e sal de iemanja!
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