Pensamentos, frases, estórias e mentiras criadas a partir de fatos corriqueiros. Uma livre distorção da realidade.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Sobressaltos do tempo
Então as horas passam, o dia passa, a vida passa. E a gente, que decidiu que ser feliz e viver era o melhor caminho, é surpreendido pela própria vida. Arrasadora, pulsante, soberana. Como uma enxurrada, que leva tudo pelo caminho. Sem distinção de sexo, cor, idade. Apenas a vida, enfim. Apenas a morte. E ao olharmos pra trás, assim, confusos, começamos a nos lamentar das coisas não vividas, dos momentos não compartilhados, dos braços que não se apertaram num abraço virulento e trôpego, num “eu te amo” profundo e sincero. Ah, como é difícil olhar pra trás e observar as coisas não experimentadas, os caminhos não escolhidos, as pessoas. Como é difícil crescer, ser adulto, optar. A cada nova conquista, um vazio, uma alternativa deixada pra trás. A cada novo amor, um antigo que se cristaliza no tempo como memória que, efêmera, se esvai aos poucos dos nossos pensamentos, embora continue ali, estática, presa no passado como uma marca do que poderia ter sido e não foi. As amizades que escorreram com o tempo. Os laços que foram desfeitos, os apartamentos desmontados. O aperto que passou, o desejo que passou, o tempo. Segundo por segundo, sem que a gente percebesse. Sem que a gente se importasse. E agora, assim, diante da morte – tão fatal e definitiva – o remorso. Aquela culpa pusilânime que se esconde no fundo do peito, da alma, dos olhos. Para escondê-la, lágrimas caem em dor. Sabemos que não é hora de remoer. Mas temos certeza, agora, que não haverá mais tempo para reparar. Para sorrir de novo, junto, abraçado. Pra conversar aquelas palavras longas e intermináveis de vida, de corpo, confidências. As conversas agora serão telepáticas, imaginativas, fantasiosas. Apenas um reflexo do que poderia ter sido. E não foi. Não. Agora não é hora de pensar no futuro. Pelo menos por este instante, é hora de rememorar o passado e as escolhas não feitas. Escolher é deixar de ir e ao mesmo tempo ficar. Dentro. Como uma realidade que não existiu. Como uma possibilidade que, agora, tarda. Assusta. Corrói.
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